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Quando
me mudei da Austrália para a Índia em 1994, eu estava entusiasmado
em imergir na cultura de um país único e antigo. Eu sabia
que eu iria viajar muito pelo país e conhecer novas pessoas
através do meu trabalho como cônsul. Eu sabia que eu iria
estabelecer um novo dojo de Aikidô e desenvolver relações
de professores e alunos com aqueles cuja vontade era de
exercer a arte seriamente. Eu também planejei estudar Yoga.
Por acaso, eu me envolvi com uma escola de dança clássica
indiana, localizada a 22 milhas de Bangalore.
A escola
fica situada num sítio de dez alqueires e foi chamada de
"Nritygram" pelo seu fundador, Sr. Protima Gauri Bedi, que
é um dos dançarinos clássicos mais famosos da Índia. Na
Índia a escola é simplesmente chamada de "a vila da dança".
Essa
é minha história sobre minha experiência com aquela escola
de dança e minha compreensão gradual dos elementos que a
dança indiana divide com o Aikidô.
As
tradições clássicas da Índia datam de pelo menos 2.000 anos.
A dança clássica da Índia é uma síntese de muitos elementos
- mitologia, literatura, musica, escultura, poesia, pintura
e templos arquitetônicos.
Como
as formas do Aikidô, as formas clássicas da dança da Índia
são mantidas vivas por alguns mestres distintos que dedicam
suas vidas para aperfeiçoar a forma da arte e repassa-la
para a próxima geração.
Enquanto
o Aikidô possui um sistema de uchi-deshi no qual
o mentor shihan vive com os alunos, a Índia possui um sistema
de "guru-shishya parampara". Nessa tradição, alunos
devotados vivem com seus mestres como uma família, aperfeiçoando
sua dança treinando por vários anos. Os alunos plantam verduras
e frutas na terra, cozinham, limpam e herdam um recital
incomum através da dança. Nrityagram é a última vila sobrevivente
dedicada a dança, a natureza da relação aluno e professor
através do sistema de guru-shishya parampara.
Alguns
meses depois que chegamos da Austrália para Bangalore, minha
esposa Susanne ouviu falar de um amigo sobre "a vila da
dança". Nós fomos até lá para darmos uma olhada.
Assim
que entramos na vila, eu fui comovido pela beleza natural
da arquitetura rústica e de sua passividade rural. O som
de um instrumento de concha ressoou por toda vila e eu notei
que todo mundo permaneceu quieto em reflexão silenciosa.
Nós
tiramos nossos sapatos e entramos na ala de treinamento.
Duas dançarinas transpirando intensivamente no calor do
verão, estavam ensaiando uma dança clássica indiana. Seus
movimentos e gestos lentos, deliberados e intrigantes retratavam
uma história derivada de um texto sânscrito antigo. Sendo
em movimento ou paradas sobre um pé, seus balanços eram
firmes - obviamente o resultado de muitos anos de treinamento
dedicado.
Eu também
assisti com fascínio a um exercício no qual duas mulheres
colocavam vendas e uma vara de bambu longa entre elas aproximadamente
duas polegadas abaixo de seus umbigos. Todo aquele segurar
da vara no lugar era a pressão de luz de seus corpos. Se
uma delas se movesse rápido de mais para trás ou se movesse
de mais para fora da linha central, a vara iria cair. Enquanto
uma se movia lentamente para frente, a pressão sutil da
vara sobre o abdômen da outra mulher fazia o corpo dela
mudar para trás em resposta se uma delas se movesse para
trás a pressão sutil da vara fazia que a outra tivesse que
mover seu corpo para frente em resposta. Uma mulher iria
lentamente deitar-se e então virar seu pé, enquanto a outra
mantivesse a distância correta (maai) necessária
para manter a vara suspensa entre elas. As mulheres andaram
para trás, para frente, para ambos os lados e em círculos.
Elas se moviam para cima e para baixo, mas a vara não caiu
em momento algum.
Depois
da sua sessão de treinamento, uma das mulheres, Bijayini
Satpathy, descreveu (em inglês perfeito) como ela conscientemente
"mantêm seu centro de gravidade" o qual (ela disse) está
"localizado mais ou menos duas polegadas abaixo de seu umbigo."
"! Quando ela disse isto, ela formou um punho e o pressionou
contra o abdômen dela para enfatizar o que estava nos contando.
Ela adicionou que o treinamento com a vara também dá " um
senso intuitivo de conexão com sua parceira."
Eu mencionei
o Aikidô, explicando que o "hara" está mo mesmo lugar
que o "centro de gravidade delas". As dançarinas ficaram
fascinadas por Aikidô e o seu conceito de hara.
Depois
de alguma discussão e um pedido de seu professor, Sr. Protima
Gauri Bedi, eu concordei em conduzir um workshop de Aikidô
para eles no sábado seguinte. Depois de sua reação entusiasmada
com o workshop e seu pedido sincero de fazer aulas regularmente
sobre a arte, eu mandei fazer 20 tatames, doei-os para a
escola de dança e comecei a ensina-los Aikidô desde então
todos os sábados de tarde.
A decisão
de voluntariamente dar o meu tempo para a "vila da dança"
toda semana foi feita facilmente pelo fato que minha esposa
amava a atmosfera da vila. A vila também promoveu um lugar
para meus filhos brincarem. Eu me comprometi a ir para a
vila toda semana por que eu senti uma afinidade forte com
o espírito que permeava a escola.
As classes
de Aikidô que eu conduzia na "vila da dança" eram estruturadas
exatamente da mesma maneira como o dois dojos de Bangalore
que eu conduzia - nada era diferente. Nós não misturávamos
o Aikidô com a dança.
O modo
como o qual as mulheres se dedicavam ao treino era exemplar:
Elas permaneciam quietas, focadas e disciplinadas, mas nunca
perdiam o seu senso para curtir as novas descobertas. Elas
treinavam duro, e para a minha surpresa, eram também muito
interessadas em jo e bokken suburi e exercícios
como happo giri (o corte para as oito direções).
Depois
de muitos meses de treinamento de Aikidô, eu notei que eles
estavam incorporando a extensão centralizada que é característica
do Aikidô dentro de seus movimentos de dança. Como aikidoístas
talvez testassem as posturas de estabilidade para garantir
unidade correta de mente e corpo, eles testavam a postura
de sua dança para verificar sua extensão sustentada do ki.
Protima me disse que o treinamento " dos dançarinos" de
Aikidô estava mudando o jeito que eles apreciavam a dança.
Em
um jantar, uma mulher me contou que sua postura na dança
clássica imita, cheia de fé, formas da dança ancestral preservadas
em escavações de um templo ancestral. Eu decidi ir até um
dos templos mais famosos para ver com meus próprios olhos.
Todos
os templos são construídos com pedras esculpidas. Seus exteriores
são cobertos por esculturas de pedra. A beleza arquitetônica
e detalhes desses templos mostram um passado onde vários
artistas e construtores devotaram suas vidas para a construção
dos mesmos.
Um templo
em Hassan ficou na minha memória. Quando eu entrei nele,
eu notei que haviam mais esculturas dentro do que em outros
templos. Quando me aventurei mais para dentro no templo,
eu encontrei um quarto pequeno que continha a entrada para
um quarto ainda menor: o santuário interno. Totalmente escuro,
o santuário interno está livre de todas as distrações e
esculturas, exceto por uma pedra larga, polida e esculpida,
chamada de "lingam".
Eu comecei
a pensar neste templo como símbolo da condição humana. O
mundo material, cheio de distrações para a mente consciente,
é simbolizado pelo exterior do templo, que é coberto por
esculturas. "Entrando dentro de si mesmo", a mente se torna
menos distraída, e é por isso mais fácil de se tornar constante.
Eu vi o silencioso, menos distraído interior do templo simbolizando
este estado da mente, que está livre das fabricações negativas
e destrutivas do ego consciente (como ansiedade, ódio e
ganância). As faces medianas e posturas das estatuas dentro
do templo retratam a indagação para a experiência intuitiva
da nossa conexão com os outros e com a natureza. Era claro
para mim que meditação era simbolizada pelos movimentos
através do centro do templo - através do sucessivamente
quarto menor, que distraía menos - até finalmente, existir
ali somente a solitude do santuário interno, que abrigava
o "lingam".
Cheio
destes pensamentos e analogias, eu estudei a forma do "lingam".
A está escultura foram dadas várias interpretações simplistas.
Foi-me dito que é um emblema de poder criativo. Na filosofia
japonesa, este poder pode ser chamado de "ki", a
"energia vital da vida" ou a "força vital universal de criação".
Também
me foi dito que o "lingam" simboliza a unidade de matéria
e espírito. No nosso treinamento de Aikidô, através do foco
no nosso hara, nós tendemos a unificar nossos corpos físicos
com a força vital do ki.
O Sensei
definiu "tekemusu aiki" como a "força de procriação e harmonia".
Assim estando dentro do templo, eu admirei o fato dos conceitos
do Aikidô de "aiki" estarem de alguma forma relacionado
com a mensagem atrás da estranha escultura ancestral.
Na frente
da entrada do santuário interno existe uma área de dança
elevada e circular que foi esculpida no chão de pedra. Eu
observei minha filha de 3 anos, Olívia, fazer piruetas no
meio deste pequeno chão de dança e eu visualizei o tempo
quando as mulheres indianas ofereciam adoração na forma
de dança. Para as dançarinas do templo da Índia ancestral,
a forma mais notável de adoração era de exibir força vital
natural coordenando mente, corpo e espírito em movimentos
hábeis e espontâneos - desinibidos por pensamento conscientes
ou ego.
Quando
eu refleti sobre minha experiência no templo, os elementos
comuns do Aikidô e da dança clássica indiana lentamente
se tornaram aparentes para mim: a sensação do dojo da vila
da dança; seu programa de "uchi-deshi"; a relação de alunos
com professores; a atitude sincera e disciplinado dos dançarinos
através do treinamento; seu foco consciente do seu centro
de gravidade; os exercícios (como aquele envolvendo a vara)
que desenvolve a conexão entre as dançarinas; a espontaneidade
de movimentos alimentados de pensamento consciente; a posição
e balanço que refletem "a mente constante"; e a cultivação
das dançarinas na centralização estendida.
Ensinar
as dançarinas também me levou a refletir sobre meu próprio
treinamento. Quando eu iniciei o treinamento de Aikidô com
o Sensei Barry Knight na Austrália, eu apenas queria ser
forte e adorado - uma atitude para transportar o meu treinamento
prévio em artes marciais. Com o tempo progredindo, de qualquer
forma, minha motivação mudou. Assim como o objetivo das
dançarinas do templo ancestral não tinha nada haver com
aplausos ou críticas, meu treinamento de Aikidô - que eu
tive sozinho no meu dojo - não tem nada haver com alimentar
o meu ego.
Eu lembro
que uma das mulheres dançarinas da vila da dança, Surupa
Sen, me contou que para ela, dançar era "terapia". "Se eu
não danço, eu fico doente", ela disse. "Pode ser psicológico,
mas acontece. Eu estou espiritualmente satisfeita apenas
depois que eu me exaustei dançando. Eu danço para minha
alma." De qualquer forma, seus motivos originais, e de todas
as mulheres dançarinas da vila da dança eram dedicar suas
vidas a dança porque elas o amam fazer. Tornou-se "parte
delas". Elas "precisam" dançar para se sentirem mais vivas.
Pelos mesmos motivos, eu "preciso" treinar Aikidô. É como
eu escolhi alcançar um entendimento mais profundo de minha
relação com a terra e com meus seres humanos antepassados
e descendentes.
Traduzido
por Simone-Corinn Czech Agatsu Dojo - São Paulo, Brasil.
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