ARTIGOS E ENTREVISTAS

No Caso de Contusão
por Alejandro Araujo

 

Amigos e companheiros aikidokas:

Aqueles que me viram no Seminário de Pta. La Cruz com os Senseis Yamada e Sakanashi, talvez tenham notado que sofri uma lesão em uma perna que me impediu de participar da maior parte do Seminário. Os dias sucessivos ao acidente constituíram-se em um verdadeiro seminário de aprendizagem sobre a natureza e tratamento de distensões musculares, que é o que sofri. Eu gostaria de compartilhar minha experiência com vocês com a esperança de que, no caso de se encontrar em uma situação parecida tenham uma idéia mais clara do que eu tinha sobre os procedimentos corretos a seguir. Talvez o segundo fato mais desagradável desta experiência (por não poder treinar por um período mais ou menos prolongado) seja a angústia de ter que decidir entre uma variedade de instruções médicas contraditórias, algumas da quais eram francamente alarmantes.

1) Sintoma
Eu estava em pé, na posição de hanmi com a perna esquerda à frente. Não estava fazendo nenhum movimento particularmente complicado ou violento, simplesmente estava parado em hanmi.
Repentinamente senti um golpe muito forte no meio da minha panturrilha direita; exatamente como receber uma pedrada por trás. A dor foi intensa e concentrada no "ponto de impacto", como se me houvesse "arrancado o músculo" e por isso não pude apoiar o pé direito no tatami.
Desde então tenho aprendido que essa sensação de um golpe ou estirão repentino é um indicador típico de uma distensão muscular. Com efeito, as fibras elásticas dos músculos proporcionam um estirão ao se romper, exatamente como uma liga de borracha que se arrebenta.
No momento que sofri a lesão, recebi uma variedade de conselhos bem intencionados, mas contraditórios, sobre a melhor maneira de tratar o dano.
Por sorte a maioria dos especialistas em traumatologia estão de acordo sobre os:

2) Procedimentos corretos a seguir em caso de distensão muscular e outras "lesões agudas" sempre que sofrer algum tipo de lesão aguda em um âmbito de atividade física (distensão muscular, fratura, impacto etc.), os procedimentos de primeiros socorros são os mesmos. Um dos traumatologistas que consultei me deu umas siglas em inglês que permitem lembrar o tratamento de emergência.
R. I. C. E
R
est - descanso e imobilização
Ice - gelo
Compression - compressão
Elevation - elevação

Segundo os especialistas, a prioridade é evitar que se estenda ou piore a lesão, portanto é necessário parar a atividade e imobilizar a zona afetada. Em seguida, se deve evitar que a lesão sangre demais e produza um hematoma maior que o necessário. Para isso se aplica gelo (uns 20 minutos de gelo por hora), e dentro do possível, compressão tolerável da zona afetada. Se possível, terá que se elevar o membro ferido acima do nível da cintura, para evitar o inchaço.
Nestas circunstâncias o calor está contra-indicado, já que o mesmo contribui para a dilatação dos vasos sangüíneos, e portanto o aumento do sangramento na zona afetada, o que significa hematomas maiores e tempos de recuperação mais lentos.
Devo reconhecer que alguns companheiros bem qualificados me ofereceram sua experiência em lesões desportivas para sustar a lesão de maneira que me permitisse continuar com a apresentação do exame. Eu lhes agradeço profundamente a oferta e a boa intenção, e não duvido que na maioria dos casos seus procedimentos sejam efetivos. No entanto, o sensei não quis correr o risco de mexer na lesão. Todos os traumatologistas consultados concordam em dizer que se eu tivesse aceito essa opção, havia a possibilidade de que a lesão tivesse se complicado seriamente. Igualmente, aqueles afetados também aceitem tais ofertas com cautela, e tenham consciência de que se corre o risco de tornar uma situação delicada em um problema muito sério. A menos que seja absoluta e completamente necessário, a melhor opção é a conservadora: não mover mais o membro lesado.
Finalmente, tem-se que obter atenção médica especializada o mais rápido possível. No entanto, lamento dizer que aqui é onde se complicam as coisas.

3) Tratamentos recomendados

Consultei uma variedade de médicos e especialistas nos campos de fisiatria e traumatologia. Entre estes, fui consultar um fisiatra e três traumatologistas, cada um com uma opinião diferente, e tratamentos em alguns casos completamente contraditórios.
Duas coisas que ficaram bem claras destas visitas: a) Um bom especialista deveria ser capaz de determinar, com um exame físico específico detalhado, se há ruptura de tendão ou não. b) Se há ruptura de tendão, a única opção é uma intervenção cirúrgica de emergência. Essa é uma lesão sumamente séria.

À parte disso, recebi três recomendações diferentes:

1ª opção: Operar

O primeiro traumatologista solicitou uma ressonância magnética (Bs. 100.000 com resultados no mesmo dia), para determinar com exatidão a gravidade do dano. Outros médicos não pensaram que isso fosse indispensável, mas de qualquer maneira com certeza não foi por mal. Este mesmo médico foi da opinião que, mesmo que não houvesse ruptura de tendão de aquiles (como sucedeu no caso da minha lesão), nem separação dos músculos afetados, deveria me operar. Sua proposta implica uma operação sumamente complexa que reconstituiria e reforçaria os músculos rompidos, para garantir que essa zona não voltaria a romper no futuro. Isto implicaria 12 semanas de imobilização completa da perna, com dois tipos diferentes de gesso, além de uma grande ferida na panturrilha. Logo se seguiria um período prolongado de fisioterapia para devolver tonicidade e elasticidade muscular.
Também receitou anti-inflamatórios em comprimidos e em cremes, aplicação de calor e repouso absoluto para a perna. Só poderia me mobilizar utilizando muletas do tipo "bastão Canadense".
Todos os outros especialistas consultados concordaram que, para o tipo de lesão que eu apresentei, não é necessário operar.

2ª opção: imobilização simples

O segundo traumatologista recomendou colocar um gesso ou férula (meio gesso removível - Bs. 54.000), para imobilizar a perna em "posição equina" (dedos apontando para baixo), por três semanas.
Isto seria seguido por um período de fisioterapia para recuperar a mobilidade e a massa muscular perdida durante o tempo em que estivesse engessado. Este médico também receitou anti-inflamatórios e imobilização com muletas, mesmo que do tipo tradicional triangular, e não do tipo bastão Canadense, que considera pouco seguro.

3ª opção: Repouso e imobilização voluntária:

O último traumatologista é da opinião (compartilhada por outros especialistas consultados), que as distensões musculares basicamente saram por si só, e que as únicas ocasiões em que se justifica operar é no caso de ruptura do tendão ou separação dos músculos.
Segundo este médico, colocar um gesso ou produzir imobilidade total é contraproducente, já que se produz um "calo" linear, que interfere com a elasticidade muscular logo que o músculo tiver sarado. Na sua opinião, um certo grau de movimento é desejável, para produzir uma cicatrização não-linear, que contribui para que o músculo restituído seja mais elástico e resistente. Portanto este médico não recomenda o uso de nenhum aparelho imobilizador. No entanto, ele sugere que se mantenha o membro afetado em repouso, aplicando compressão leve. No meu caso, me recomendou que utilizasse uma meia anti-varizes (N. T.: meias elásticas), que proporciona a compressão adequada. Na sua opinião, o calor está contra-indicado. Além disso, ele não recomenda a aplicação de cremes nem pomadas, com exceção de cremes hidratantes para a pele. No caso da minha lesão, o doutor me permitiu dirigir distâncias curtas, coisa que os outros médicos proibiram absolutamente. Não devo permanecer de pé por tempo prolongado e posso caminhar utilizando sapatos com sola de borracha, e muletas do tipo "bastão Canadense", que na sua opinião são as melhores. Se recomenda uma dieta sem sal.
Após 2 semanas, aproximadamente, posso fazer exercícios leves de estiramento do tendão de aquiles. Após 4 semanas, pôr peso sobre a perna, com tolerância, e fazer exercícios ativos com a ajuda de um elástico "Theraband". Depois de 6 a 8 semanas posso fazer exercício ativo com carga de peso, e mais ou menos reativar meu treinamento normal de aikido.

Cada um dos médicos consultados é um profissional bem estabelecido, com recomendações e uma reputação reconhecida no seu campo. Cada um apresentou argumentos firmes e convincentes para justificar suas recomendações. Provavelmente ao final de qualquer dos três métodos de tratamento, o músculo afetado funcionasse igualmente bem.

Por uma variedade de razões, incluindo minha intuição, custos, e a coincidência com a experiência de outras pessoas, eu decidi acatar as recomendações do último traumatologista consultado. Provavelmente procure reforçar o processo de cura com a aplicação de acupuntura.

Minha recomendação pessoal para vocês, no caso de sofrer uma lesão parecida, é: procurem com urgência a opinião de pelo menos dois ou três médicos de confiança e não façam gastos altos nem tratamentos definitivos, até ter escutado todas as opiniões. Em seguida guiem-se pela sua intuição, e pela opção que lhe pareça mais adequada. Lembrem de que uma operação é um procedimento complexo, altamente invasivo, que implica certos riscos e que deveria ser usado só em último caso.

4) Como evitar este tipo de lesão?

A única recomendação universal é: aquecer cuidadosa e minuciosamente antes e depois do treinamento. Uma boa rotina de alongamento é a melhor prevenção - mesmo que nada garanta segurança absoluta.

Isto implica que nas situações em que se chega tarde na aula, ou se entra em algum seminário onde as sessões de alongamento são breves, é importante usar o tempo para alongar individualmente antes de entrar no tatami. Lembrem que a etiqueta de dojo diz que este tipo de atividade deve se realizar fora da área do tatami, preferivelmente fora da vista do Sensei e dos outros participantes que já estão no tatami.

Espero que este artigo lhes seja de utilidade.
Lembranças,
Alejandro Araujo

 



 

 

 

 

 

 


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