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Amigos
e companheiros aikidokas:
Aqueles que me viram no Seminário de Pta. La Cruz
com os Senseis Yamada e Sakanashi, talvez tenham notado
que sofri uma lesão em uma perna que me impediu de
participar da maior parte do Seminário. Os dias sucessivos
ao acidente constituíram-se em um verdadeiro seminário
de aprendizagem sobre a natureza e tratamento de distensões
musculares, que é o que sofri. Eu gostaria de compartilhar
minha experiência com vocês com a esperança
de que, no caso de se encontrar em uma situação
parecida tenham uma idéia mais clara do que eu tinha
sobre os procedimentos corretos a seguir. Talvez o segundo
fato mais desagradável desta experiência (por
não poder treinar por um período mais ou menos
prolongado) seja a angústia de ter que decidir entre
uma variedade de instruções médicas
contraditórias, algumas da quais eram francamente
alarmantes.
1)
Sintoma
Eu
estava em pé, na posição de hanmi com
a perna esquerda à frente. Não estava fazendo
nenhum movimento particularmente complicado ou violento,
simplesmente estava parado em hanmi.
Repentinamente senti um golpe muito forte no meio da minha
panturrilha direita; exatamente como receber uma pedrada
por trás. A dor foi intensa e concentrada no "ponto
de impacto", como se me houvesse "arrancado o
músculo" e por isso não pude apoiar o
pé direito no tatami.
Desde então tenho aprendido que essa sensação
de um golpe ou estirão repentino é um indicador
típico de uma distensão muscular. Com efeito,
as fibras elásticas dos músculos proporcionam
um estirão ao se romper, exatamente como uma liga
de borracha que se arrebenta.
No momento que sofri a lesão, recebi uma variedade
de conselhos bem intencionados, mas contraditórios,
sobre a melhor maneira de tratar o dano.
Por sorte a maioria dos especialistas em traumatologia estão
de acordo sobre os:
2)
Procedimentos corretos a seguir em caso de distensão
muscular e outras "lesões agudas" sempre
que sofrer algum tipo de lesão aguda em um âmbito
de atividade física (distensão muscular, fratura,
impacto etc.), os procedimentos de primeiros socorros são
os mesmos. Um dos traumatologistas que consultei me deu
umas siglas em inglês que permitem lembrar o tratamento
de emergência.
R.
I. C. E
Rest
- descanso e imobilização
Ice - gelo
Compression - compressão
Elevation - elevação
Segundo
os especialistas, a prioridade é evitar que se estenda
ou piore a lesão, portanto é necessário
parar a atividade e imobilizar a zona afetada. Em seguida,
se deve evitar que a lesão sangre demais e produza
um hematoma maior que o necessário. Para isso se
aplica gelo (uns 20 minutos de gelo por hora), e dentro
do possível, compressão tolerável da
zona afetada. Se possível, terá que se elevar
o membro ferido acima do nível da cintura, para evitar
o inchaço.
Nestas
circunstâncias o calor está contra-indicado,
já que o mesmo contribui para a dilatação
dos vasos sangüíneos, e portanto o aumento do
sangramento na zona afetada, o que significa hematomas maiores
e tempos de recuperação mais lentos.
Devo
reconhecer que alguns companheiros bem qualificados me ofereceram
sua experiência em lesões desportivas para
sustar a lesão de maneira que me permitisse continuar
com a apresentação do exame. Eu lhes agradeço
profundamente a oferta e a boa intenção, e
não duvido que na maioria dos casos seus procedimentos
sejam efetivos. No entanto, o sensei não quis correr
o risco de mexer na lesão. Todos os traumatologistas
consultados concordam em dizer que se eu tivesse aceito
essa opção, havia a possibilidade de que a
lesão tivesse se complicado seriamente. Igualmente,
aqueles afetados também aceitem tais ofertas com
cautela, e tenham consciência de que se corre o risco
de tornar uma situação delicada em um problema
muito sério. A menos que seja absoluta e completamente
necessário, a melhor opção é
a conservadora: não mover mais o membro lesado.
Finalmente,
tem-se que obter atenção médica especializada
o mais rápido possível. No entanto, lamento
dizer que aqui é onde se complicam as coisas.
3)
Tratamentos recomendados
Consultei
uma variedade de médicos e especialistas nos campos
de fisiatria e traumatologia. Entre estes, fui consultar
um fisiatra e três traumatologistas, cada um com uma
opinião diferente, e tratamentos em alguns casos
completamente contraditórios.
Duas coisas que ficaram bem claras destas visitas: a) Um
bom especialista deveria ser capaz de determinar, com um
exame físico específico detalhado, se há
ruptura de tendão ou não. b) Se há
ruptura de tendão, a única opção
é uma intervenção cirúrgica
de emergência. Essa é uma lesão sumamente
séria.
À parte disso, recebi três recomendações
diferentes:
1ª
opção: Operar
O
primeiro traumatologista solicitou uma ressonância
magnética (Bs. 100.000 com resultados no mesmo dia),
para determinar com exatidão a gravidade do dano.
Outros médicos não pensaram que isso fosse
indispensável, mas de qualquer maneira com certeza
não foi por mal. Este mesmo médico foi da
opinião que, mesmo que não houvesse ruptura
de tendão de aquiles (como sucedeu no caso da minha
lesão), nem separação dos músculos
afetados, deveria me operar. Sua proposta implica uma operação
sumamente complexa que reconstituiria e reforçaria
os músculos rompidos, para garantir que essa zona
não voltaria a romper no futuro. Isto implicaria
12 semanas de imobilização completa da perna,
com dois tipos diferentes de gesso, além de uma grande
ferida na panturrilha. Logo se seguiria um período
prolongado de fisioterapia para devolver tonicidade e elasticidade
muscular.
Também receitou anti-inflamatórios em comprimidos
e em cremes, aplicação de calor e repouso
absoluto para a perna. Só poderia me mobilizar utilizando
muletas do tipo "bastão Canadense".
Todos os outros especialistas consultados concordaram que,
para o tipo de lesão que eu apresentei, não
é necessário operar.
2ª
opção: imobilização simples
O
segundo traumatologista recomendou colocar um gesso ou férula
(meio gesso removível - Bs. 54.000), para imobilizar
a perna em "posição equina" (dedos
apontando para baixo), por três semanas.
Isto seria seguido por um período de fisioterapia
para recuperar a mobilidade e a massa muscular perdida durante
o tempo em que estivesse engessado. Este médico também
receitou anti-inflamatórios e imobilização
com muletas, mesmo que do tipo tradicional triangular, e
não do tipo bastão Canadense, que considera
pouco seguro.
3ª
opção: Repouso e imobilização
voluntária:
O
último traumatologista é da opinião
(compartilhada por outros especialistas consultados), que
as distensões musculares basicamente saram por si
só, e que as únicas ocasiões em que
se justifica operar é no caso de ruptura do tendão
ou separação dos músculos.
Segundo este médico, colocar um gesso ou produzir
imobilidade total é contraproducente, já que
se produz um "calo" linear, que interfere com
a elasticidade muscular logo que o músculo tiver
sarado. Na sua opinião, um certo grau de movimento
é desejável, para produzir uma cicatrização
não-linear, que contribui para que o músculo
restituído seja mais elástico e resistente.
Portanto este médico não recomenda o uso de
nenhum aparelho imobilizador. No entanto, ele sugere que
se mantenha o membro afetado em repouso, aplicando compressão
leve. No meu caso, me recomendou que utilizasse uma meia
anti-varizes (N. T.: meias elásticas), que proporciona
a compressão adequada. Na sua opinião, o calor
está contra-indicado. Além disso, ele não
recomenda a aplicação de cremes nem pomadas,
com exceção de cremes hidratantes para a pele.
No caso da minha lesão, o doutor me permitiu dirigir
distâncias curtas, coisa que os outros médicos
proibiram absolutamente. Não devo permanecer de pé
por tempo prolongado e posso caminhar utilizando sapatos
com sola de borracha, e muletas do tipo "bastão
Canadense", que na sua opinião são as
melhores. Se recomenda uma dieta sem sal.
Após 2 semanas, aproximadamente, posso fazer exercícios
leves de estiramento do tendão de aquiles. Após
4 semanas, pôr peso sobre a perna, com tolerância,
e fazer exercícios ativos com a ajuda de um elástico
"Theraband". Depois de 6 a 8 semanas posso fazer
exercício ativo com carga de peso, e mais ou menos
reativar meu treinamento normal de aikido.
Cada
um dos médicos consultados é um profissional
bem estabelecido, com recomendações e uma
reputação reconhecida no seu campo. Cada um
apresentou argumentos firmes e convincentes para justificar
suas recomendações. Provavelmente ao final
de qualquer dos três métodos de tratamento,
o músculo afetado funcionasse igualmente bem.
Por
uma variedade de razões, incluindo minha intuição,
custos, e a coincidência com a experiência de
outras pessoas, eu decidi acatar as recomendações
do último traumatologista consultado. Provavelmente
procure reforçar o processo de cura com a aplicação
de acupuntura.
Minha
recomendação pessoal para vocês, no
caso de sofrer uma lesão parecida, é: procurem
com urgência a opinião de pelo menos dois ou
três médicos de confiança e não
façam gastos altos nem tratamentos definitivos, até
ter escutado todas as opiniões. Em seguida guiem-se
pela sua intuição, e pela opção
que lhe pareça mais adequada. Lembrem de que uma
operação é um procedimento complexo,
altamente invasivo, que implica certos riscos e que deveria
ser usado só em último caso.
4)
Como evitar este tipo de lesão?
A
única recomendação universal é:
aquecer cuidadosa e minuciosamente antes e depois do treinamento.
Uma boa rotina de alongamento é a melhor prevenção
- mesmo que nada garanta segurança absoluta.
Isto
implica que nas situações em que se chega
tarde na aula, ou se entra em algum seminário onde
as sessões de alongamento são breves, é
importante usar o tempo para alongar individualmente antes
de entrar no tatami. Lembrem que a etiqueta de dojo diz
que este tipo de atividade deve se realizar fora da área
do tatami, preferivelmente fora da vista do Sensei e dos
outros participantes que já estão no tatami.
Espero
que este artigo lhes seja de utilidade.
Lembranças,
Alejandro Araujo
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