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Quando treinamos Aikidô, simplesmente
levamos a nós mesmos para cima do tatami. Nesse momento,
já se perguntou quem realmente você é? Existem fatos indiscutíveis
a respeito de si próprios. São, por exemplo, o tamanho de
seu corpo, seu sexo, sua nacionalidade. O ambiente, valores
próprios, crenças também são fatores que nos caracterizam.
Seres humanos são animais assustadoramente complexos. Acredito
que o Aikidô nos mostra o nosso verdadeiro íntimo. É uma
maneira de nos mostrar o que realmente nos é importante,
ajudando-nos a encontrar a resposta para a questão: afinal
quem diabos somos. Então existe o ponto que achamos que
entendemos o que está acontecendo. Existe a expressão "animal
adaptável" e todo mundo gosta de se sentir adaptado. No
final das contas, tudo não é reconfortante quando se pega
o ritmo? Esse conforto, entretanto, pode levar-nos ao grilhão.
Uma vez que se tenha consciência dos fatores que fazem de
nós o que nós somos, temos que verificar se estes conceitos
possibilitam nosso desenvolvimento. E depois? Acho que tudo
o que falei até aqui pode ser aceito genericamente por muitas
pessoas, mas aí vem a questão: de que maneira se pode entrar
no tatami e fazer daquele treino algo significativo para
ambas as partes?
Eu quis escrever isto porque de vez em quando, após o treino
as pessoas com quem treinei me perguntam: "Você sempre treina
assim?" e eu respondo: "Hmmm, sim, é sempre desse jeito.".
Provavelmente não é a primeira nem a última vez que meus
companheiros acham que eu sou (por favor, coloquem aqui
um adjetivo que mais lhe agrade). Então outras pessoas riem
e querem treinar novamente comigo. Se quiserem ler, vou
escrever o que eu tenho vontade de fazer. Quero fazer um
treino que tenha significado. Estou tentando não me deixar
atar por conceitos não percebidos. A única maneira de transcender
a fatos tais como: sou mulher, tenho 1,60m, odeio o violência
e amo chocolates é lembrar minha essência e concentrar-me
o mais possível no parceiro.
Quando se concentra demais em si próprio ou quando somos
influenciados demais pelos outros ou quando nos preocupamos
demais com os outros, a conexão é rompida. A relação humana
é muito importante.
Durante o treino, uma possível analogia é imaginar que eu
e meu companheiro(a) de treino estamos andando juntos no
caminho do waza. À medida que vamos pelo caminho, é uma
possibilidade que ele/ela se vire repentinamente e me ataque
(claro que torço para que isso não aconteça). Mas absolutamente
não quero manter o estado de esperar esse ataque com as
mãos nos bolsos segurando uma arma. Eu sempre começo o treino
com o intuito de fazer algo juntos.
Por isso vamos juntos nesse caminho. Tanto quanto possível,
mantenho o pensamento no fato de estarmos juntos. Creio
que esse meu pensamento fica muito claro no meu "grudento"
ukemi. A insistência de ficar grudado é também a vontade
de manter a minha conexão. Querer manter a conexão tem o
significado de querer estar lá, pelo meu parceiro. Mas não
deixa de ser um método estranho, em que se dando, recebe
e que se consegue, aceitando. É uma espécie de associação
construtiva na qual há possibilidades de se aventurar. Acho
que o ponto onde termina um especial tipo de exploração
é o ponto da queda. Fazer um ukemi é uma conseqüência lógica
do caminho em comum, mas não é uma conclusão pré-determinada
no início da caminhada. É por isso que acho no mínimo interessante
o fato de irmos pelo caminho do waza e de ficar o maior
tempo possível juntos. Penso, esperançosa, que essa conexão
pode dar pistas para responder à pergunta: "Quem é você?".
Mesmo para mim, esse método é questão de vida ou morte.
Quando meu parceiro ataca, lhe é mais difícil atacar a quem
está junto do que a quem está separado. Se o outro subir,
eu também subo. Se ele descer, também desço. Soltar sua
própria mão é uma coisa muito difícil. Isto é, se tem alguém
junto à sua mão e se quiser também ficar junto a essa mão,
é muito difícil fugir dele. Então a chave para essa situação
é não fugir disso, concentrar-se na conexão com o outro
e no que está acontecendo aí.
Há vários métodos de explorações, mas este é o meu. Espero
que seus próprios métodos lhes estejam promovendo treinos
significativos. No final de contas, será que existe algo
a perder?
(Março de 1999)
Tradução: Bala &
Satie- Dojo Central do Instituto Takemussu.
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