ARTIGOS E ENTREVISTAS

Conexão
Por Sandra Odorico, Aikikai Hombu Dojô

Quando treinamos Aikidô, simplesmente levamos a nós mesmos para cima do tatami. Nesse momento, já se perguntou quem realmente você é? Existem fatos indiscutíveis a respeito de si próprios. São, por exemplo, o tamanho de seu corpo, seu sexo, sua nacionalidade. O ambiente, valores próprios, crenças também são fatores que nos caracterizam. Seres humanos são animais assustadoramente complexos. Acredito que o Aikidô nos mostra o nosso verdadeiro íntimo. É uma maneira de nos mostrar o que realmente nos é importante, ajudando-nos a encontrar a resposta para a questão: afinal quem diabos somos. Então existe o ponto que achamos que entendemos o que está acontecendo. Existe a expressão "animal adaptável" e todo mundo gosta de se sentir adaptado. No final das contas, tudo não é reconfortante quando se pega o ritmo? Esse conforto, entretanto, pode levar-nos ao grilhão. Uma vez que se tenha consciência dos fatores que fazem de nós o que nós somos, temos que verificar se estes conceitos possibilitam nosso desenvolvimento. E depois? Acho que tudo o que falei até aqui pode ser aceito genericamente por muitas pessoas, mas aí vem a questão: de que maneira se pode entrar no tatami e fazer daquele treino algo significativo para ambas as partes?

Eu quis escrever isto porque de vez em quando, após o treino as pessoas com quem treinei me perguntam: "Você sempre treina assim?" e eu respondo: "Hmmm, sim, é sempre desse jeito.". Provavelmente não é a primeira nem a última vez que meus companheiros acham que eu sou (por favor, coloquem aqui um adjetivo que mais lhe agrade). Então outras pessoas riem e querem treinar novamente comigo. Se quiserem ler, vou escrever o que eu tenho vontade de fazer. Quero fazer um treino que tenha significado. Estou tentando não me deixar atar por conceitos não percebidos. A única maneira de transcender a fatos tais como: sou mulher, tenho 1,60m, odeio o violência e amo chocolates é lembrar minha essência e concentrar-me o mais possível no parceiro.

Quando se concentra demais em si próprio ou quando somos influenciados demais pelos outros ou quando nos preocupamos demais com os outros, a conexão é rompida. A relação humana é muito importante.

Durante o treino, uma possível analogia é imaginar que eu e meu companheiro(a) de treino estamos andando juntos no caminho do waza. À medida que vamos pelo caminho, é uma possibilidade que ele/ela se vire repentinamente e me ataque (claro que torço para que isso não aconteça). Mas absolutamente não quero manter o estado de esperar esse ataque com as mãos nos bolsos segurando uma arma. Eu sempre começo o treino com o intuito de fazer algo juntos.

Por isso vamos juntos nesse caminho. Tanto quanto possível, mantenho o pensamento no fato de estarmos juntos. Creio que esse meu pensamento fica muito claro no meu "grudento" ukemi. A insistência de ficar grudado é também a vontade de manter a minha conexão. Querer manter a conexão tem o significado de querer estar lá, pelo meu parceiro. Mas não deixa de ser um método estranho, em que se dando, recebe e que se consegue, aceitando. É uma espécie de associação construtiva na qual há possibilidades de se aventurar. Acho que o ponto onde termina um especial tipo de exploração é o ponto da queda. Fazer um ukemi é uma conseqüência lógica do caminho em comum, mas não é uma conclusão pré-determinada no início da caminhada. É por isso que acho no mínimo interessante o fato de irmos pelo caminho do waza e de ficar o maior tempo possível juntos. Penso, esperançosa, que essa conexão pode dar pistas para responder à pergunta: "Quem é você?".

Mesmo para mim, esse método é questão de vida ou morte. Quando meu parceiro ataca, lhe é mais difícil atacar a quem está junto do que a quem está separado. Se o outro subir, eu também subo. Se ele descer, também desço. Soltar sua própria mão é uma coisa muito difícil. Isto é, se tem alguém junto à sua mão e se quiser também ficar junto a essa mão, é muito difícil fugir dele. Então a chave para essa situação é não fugir disso, concentrar-se na conexão com o outro e no que está acontecendo aí.

Há vários métodos de explorações, mas este é o meu. Espero que seus próprios métodos lhes estejam promovendo treinos significativos. No final de contas, será que existe algo a perder?
(Março de 1999)

Tradução: Bala & Satie- Dojo Central do Instituto Takemussu.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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