ARTIGOS E ENTREVISTAS

Aikido e a Cadeira de Rodas
por Ron Bundrun - Traduzido por Antonino Barreto

Uma noite, logo depis de entrar no dojo, meu sensei me disse que queria que eu escrevesse o que o Aikido tinha feito por mim. Eu sorri e disse a ele que para escrever sobre como o Aikido havia mudado minha vida, eu necessitaria de compartilhar um pouco do meu passado:

Em 1974, fui diagnosticado como possuindo uma distrofia muscular. Uma doença misteriosa tinha tirado o ki de minhas pernas e esta era a única resposta lógica que os os médicos podiam me dar. Mas vários meses mais tarde, o que parecia ser distrofia mudou para um cancer na coluna.

Em Setenbro de 1974, um tumor do tamanho de uma grande laranja foi parcialmente retirado do meio de minha coluna. O que se seguiu nos proximos 20 anos foi uma parte do inferno: tratamentos de radiação, 13 operaçoes corretivas e vários testes e exames de raio-X. Em uma ocasião em 1983, uma infecçaão hospitalar severa, com febres altas, me deu 5% de chances de continuar vivendo após aquela noite.

Como podem perceber eu sobrevivi mas a minha vida havia mudado para sempre. Não somente a dor de quase ter morrido mas fui confinado a viver em uma cadeira de rodas.

Em junho de 1993, entrei em um dojo de Aikido enquanto visitava meu tio. Sendo sempre fascinado por artes marciais, decidi dar ao Aikido uma chance, mesmo estando em uma cadeira de rodas.

A princípio, o Sensei ficou me olhando e a minha cadeira de rodas. Mas ele disse que se eu estava querendo treinar, ele queria me ensinar. O Sensei me disse que o Aikido ensina que devemos nos misturar com pessoas e que todos devem ter uma chance. Então comecei a treinar.

Eu percebi mudanças em meu corpo desde o primeiro dia. A circulação de minhas pernas aumentou. A dor em minhas costas parece diminuir durante os treinamentos. E estou feliz pois eventualmente alguns movimentos retornaram as minhas extremidades inferiores.

Com a ajuda de meu sensei e meus amigos estudantes eu aprendi a mudar meu mundo físico. Aprendi que posso defender-me apesar de minha deficiência, que posso controlar minha dor expandindo meu ki e que o Aikido pode ser praticado por qualquer um e estas são simplesmente as lições físicas. As lições emocionais que se seguiram foram mais surpreendentes.

A principal coisa que percebo quando treino com uma deficiencia é que não estou realmente em desvantagem. O-Sensei desenvolveu o Aikido para ser praticado em pé, sentado, e eventualmente deitado. (Eu já executei técnicas muito eficientes deitado).

Pessoas com deficiência enxergam a si mesmo como vulneráveis quando são atacados e este sentimento de vulnerabilidade tende a produzir pânico. Então, gasto uma grande parte do meu treino aprendendo a estar calmo durante um ataque. Eu tenho treinado a expandir meu ki e pensar , não em desvantagens, mas nas vantagens e qual técnica é mais eficiente para mim.

Claro que tive que fazer algumas alterações nas técnicas. Deste modo, shihonage é muito interessante. Eu faço o que chamo de "Pinole shihonage" , que eu nomeei em homenagem ao meu Dojo, Pinole Aikido. Ao invés de girar em volta de meu uke, eu agarro a mão do uke e rolo no chão. Fazendo isto, pareço um cão rolando, ou como dizem alguns alunos como um crocodilo tentando se alimentar. Se você pode imaginar sua mão na boca de um cachorro ou de um crocodilo enquanto está rolando, você pode entender o poder desta técnica.

Jo kata é outro aspecto do aikido que eu modifiquei. Eu o executo tanto em minha cadeira quanto no chão. Com a ajuda de meu Sensei e um estudante avançado. Eu planejei um kata que assemelha-se a canoagem. Aprendi, indo para baixo e forçando os agressores a abaixar ou pular sobre a minha cadeira, eu posso expor seus joelhos e tornozelos. O jo kata que faço é difícil de explicar mas é muito eficiente para pessoas com ou sem deficiencias.

Meditação (Zazen) foi um presente de Deus para mim. Eu tive 14 operaçõese e a dor permanente é parte de minha vida. Mas, usando exercícios e técnicas de meditação Zen, eu aprendi a controlar muito da minha dor. Eu acredito no que o meu Sensei fala - que a dor é um estado mental e que controlando a mente podemos controlar a dor.

Minha filosofia no alongamnento é a seguinte: faço todos os alongamentos no chão exceto os que necessitam realmente ficar de pé.

Eu vi a morte cara a cara. Mas lendo os textos de O-Sensei e ouvindo meu Sensei, aprendi que a morte é parte da vida. Nascemos, crescemos e então morremos. Treinando Aikido aprendi que, enqaunto estamos vivos, podemos tocar os outros com nossos corações, podemos nos misturar com os outros, ajudar e amar os outros. Também aprendi a viver cada dia como se fosse meu último, parando para ver a beleza de uma flor, o calor do sol e a compania de amigos e da família.

O Aikido me ensinou o respeito a mim mesmo e por todas as coisas vivas. Mesmo sabendo que eu nunca irei caminhar de novo, o Aikido me mostrou que a medida de uma pessoa é seu coração e alma, não suas pernas.

Gostaria de terminar dizendo a todos que leram este artigo, que treinam Aikido ou não, que continuem a acreditar em si próprios e que continuem a tentar.




 

 

 

 

 

 


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