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Antes
da invenção das armas de fogo, os guerreiros lutavam com
armas de aço, espadas, lanças, machados . Certamente o samurai
japonês medieval talvez tenha sido o guerreiro mais ameaçador
de todos. O aço de seu katana era especialmente temperado,
estando o armeiro sob transe dentro de um ritual shintoista.
Sua lâmina era tão afiada que podia cortar seda se fosse
colocada gentilmente sobre ela. Seu treinamento era rigorosíssimo,
seus cortes com a espada era desferidos com grande velocidade
e os embates eram decididos freqüentemente com um ou dois
movimentos. Porém certamente a coisa que mais o deixava
ameaçador e poderoso era a presença e percepção do momento
com a qual ele se colocava diante de seu inimigo.
Quando
dois samurais se defrontavam se posicionavam um frente ao
outro com as posições de guarda normalmente com a espada
levantada ficavam imóveis e observando um ao outro, aguardando
pacientemente, e isto poderia demorar minutos. Quem não
está acostumado com a técnica do espadachim japonês, ao
assistir filmes de guerra do Japão medieval, não entendem
o que os atores querem representar, pode ficar entediado
com a espera , com a imobilidade das cenas, sem ação. Porém
o observador atento perceberá que cada um deles está mostrando
como os samurais agiam esperando uma pequena abertura na
guarda do oponente, (tsuki), onde ocorre uma mudança em
seu "ki" (concentração), que permitirá o ataque mortal.
O resultado do combate dependia da capacidade do guerreiro
vencedor em manter imóvel a sua mente, sua atenção para
perceber o momento da falha daquele que seria derrotado.
Como
todos treinavam com muito afinco diariamente, praticamente
as habilidades físicas dos samurais chegavam a um limite
técnico que muitos podiam atingir, nivelando os combatentes
no aspecto físico. Assim o que fazia a diferença era o treinamento,
mental, espiritual , sendo vencedor aquele que estivesse
com melhor domínio de sua mente e de suas emoções. Este
treinamento exigia que o guerreiro aprendesse a manter a
sua mente calma, e com sua atenção global (zanchin), sem
se distrair por qualquer que fosse a razão. Se ele ficasse
com medo, a abertura apareceria, e o inimigo atacaria com
o golpe mortal, o mesmo com a raiva, a inveja e pensamentos
alheios ao momento presente.
Se por
exemplo, naquele momento de espera antes que as espadas
desferissem seus golpes o samurai focalizasse em um pensamento
, como por exemplo , sua família, ou a possibilidade de
derrota, o se a espada dele estava bem afiada, seu inimigo
de alto nível perceberia sua distração e aí teria a abertura
(tsuki), para matá-lo, pois seu "ki", sairia daquele momento
e lugar da luta e viajaria fatalmente para o objeto de sua
preocupação. Por isto o samurai era treinado desde sua infância
para não se preocupar com nada, mesmo com a morte aprendendo
a fazer as coisas sem medo de morrer.
O Zen,
e o shintoismo ajudavam neste particular a se desprender
dos pensamentos, criando um vazio mental, bem como o abandono
ao mundo material. O resultado era que estando pronto para
morrer estaria o samurai preparado com o seu máximo potencial
para viver agindo em sua máxima plenitude indo nos limites
de seu potencial. Em 1603 após muitos anos de guerras ,
o Japão foi unificado dentro do shogunato Tokugawa. Este
regime forte, trouxe uma paz duradoura por 250 anos. E se
por isto acabaram-se as guerras nem por isto os guerreiros
japoneses deixaram de treinar os seus espíritos de outra
forma, e assim homens e mulheres , criaram artes muitos
sutis onde podiam se exercitar mantendo o espírito atento
e conectado a toda a realidade em sua volta. E mais estes
homens e mulheres cientes da importância da atenção com
o momento presente, permeavam esta atitude em todos os aspectos
de suas vidas diárias. Da cultura da classe samurai veio
a arte da cerimônia do Chá, a poesia Haiku, a Ikebana, o
teatro Noh, a caligrafia, a pintura sumi, e muito da arte
da cerâmica. Este casamento que os japoneses antigos fizeram
das técnicas de guerra com as artes, permanece ainda como
uma das grandes realizações da cultura nipônica.
Foi
no período Tokukawa que houve o desenvolvimento do "Bushido",
um código de honra semelhante aos dos cavaleiros medievais
da Europa onde as virtudes da lealdade, integridade, dignidade,
cortesia, coragem, prudência, e benevolência eram cultivadas.
Eles ficavam a serviço de seu "daimyo"(senhor feudal) com
a certeza de estarem servindo assim a seus "kami"(espíritos
protetores). É importante que a palavra "Samurai", em japonês
significa aquele que serve. O Aikido introduziu uma grande
reforma na maneira de agir dos samurais, mas ele contem
muito de seu espírito. Ouvindo o que aqui está escrito podemos
pensar que esta situação de vida ou morte acima descrita
é coisa dos tempos medievais e inútil para nosso dia a dia
moderno, porém pensando assim estaremos longe da verdade.
Atualmente
muitos freqüentam as universidades, as escolas, os cursos
, recebem os mesmos treinamentos, só que uns conseguem sucesso
na vida e outros não, e a causa disto, é que no fundo, as
mesmas qualidades espirituais cultivadas pelos samurais
são necessárias para se vencer o dia a dia dos tempos modernos,
seja no mundo dos negócios, da administração publica ou
privada, ou nas associações de pessoas. Todos nós no seu
devido grau sabemos que somente podemos realmente realizar
as coisas, quando corremos riscos, empresariamos, ou seja
"ficamos sob a eminência de sermos cortados pela espada".
De certa
forma todos nós podemos ficar frente a possibilidade da
"morte", ao enfrentarmos a possibilidade de um fracasso
financeiro, e uma conseqüente falência, ou perda de um bom
emprego, por nossa ousadia. Porém se ficarmos imóveis, amarrados
em nossa segurança e nosso medo, sem coragem para tentar
realizar nossos sonhos, eles jamais acontecerão. Mas não
basta ousar, e avançar, é necessário estar preparado, não
deixando "tsukis", em nossos projetos. Neste contexto, as
artes marciais podem muito nos ajudar a sermos indivíduos
mais realizadores, mais empreendedores, e principalmente,
mais cheios de vida.
Se por
tentarmos viver podemos morrer, se ficarmos estagnados já
estaremos mortos. Os
tolos se aventuram sem a correta base material e espiritual
e fracassam.Os
sábios porém , como os guerreiros samurais, sabem que viver
é correr riscos, mas sempre com o espírito preparado, sem
deixar "tsuki" e por isto vencem, e se tornam felizes.
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