ARTIGOS E ENTREVISTAS

Treinamento em aikido e brutalidade policial
por Clarence Conwell


Brutalidade - a palavra evoca imagens variando desde um simples tapa na face até a tortura letal.

A brutalidade policial tem sido amplamente discutida nos anos recentes. Longe de ser nova, entretanto, a discussão do controle excessivo governamental é tão velho quanto este país. E conhecendo o perigo do controle excessivo governamental, os criadores da constituição trataram dos aspectos físicos da liberdade pelos excessos governamentais na 4ª emenda (que proíbe "a procura ilegal e o confisco") e a 8ª emenda (que proíbe a "punição cruel e incomum").

A brutalidade é o uso da força de forma excessiva que causa danos corporais ou morte. Embora haja várias leis nos níveis federal e estadual que especificamente tratam do uso irracional da força por oficiais de policia, todas estas leis têm uma coisa em comum: Para provar que o oficial da lei é culpado de brutalidade, deve ser mostrado que ele ou ela agiram intencionalmente ou com total negligência. Em muitas situações para a brutalidade ocorrer, o perpetrador deve ter o controle de suas vítimas e tomar uma decisão consciente de machucar tais vítimas.

Há várias formas que um policial pode utilizar para efetuar uma prisão hostil (com resistência). Irritantes químicos, tais como spray de pimenta, são algumas vezes efetivos, mas eles podem não subjugar suspeitos combativos. Aparelhos tais como as armas de atordoamento, as espingardas de balas de borracha, e os tasers, tendem a ser desajeitados e grandes, não sendo práticos de carregar, e desta forma eles raramente estarão disponíveis ao policial quando realmente necessários. Também esses equipamentos não são aquela panacéia, Eles geralmente causam danos e às vezes a morte. Portanto, o policial tem três caminhos primários para efetuar a prisão hostil: combate mão a mão, combate com armas de impacto (cassetete, lanternas, etc) e combates com armas de fogo.

As leis federais e estaduais direcionam os policiais a usar a força tanto quanto o necessário e aceitável para efetuar uma prisão. Por exemplo, A lei da Califórnia (código penal, seção 835 a) reza: "um policial não necessita se retirar ou desistir de seus esforços por motivo de resistência ou ameaça de resistência da pessoa que está sendo presa, nem deve tal policial ser considerado um agressor ou perder seus direitos de autodefesa........". Um policial que sensatamente teme por sua segurança pode usar a força tanto quanto necessária para defender-se. A racionalidade desta força é igual a aquela de qualquer outro cidadão.

Quando nós pensamos em força, as armas de fogo rapidamente vêm à nossa mente. Obviamente, se um policial pode usar a arma, ele ou ela pode facilmente manter o controle. Mas o uso da arma de fogo é usualmente considerado como "excessivo" pelo público (e também pelos tribunais) quando o suspeito esta desarmado, especialmente quando os agressores em questão são menores.

As armas de impacto são muito mais usadas que as armas de fogo e portanto elas são alvo de muitos mais processos judiciais. A mera aparição de armas de impacto traz a mente imagens de tortura e espancamento nas mentes de muitos Americanos. Freqüentemente, a primeira geração de Americanos que têm escapado de regimes opressivos em outros lugares e portanto têm memória vivida de cassetetes (porretes) sendo usados para "manter" a ordem. E outros Americanos podem também ter uma imagem desgastada das armas de impacto. Virtualmente toda imagem televisada do uso de armas de impacto pela policia é instintivamente caracterizada como um "espancamento" pela mídia. De qualquer maneira o confronto de um policial usando cassetete em um suspeito desarmado é visto como brutal e injusto.

A linha tênue entre temor e raiva pode facilmente começar a ficar indistinta. O treinamento - e somente o treinamento - pode reduzir o temor, prevenindo sua degradação em raiva e brutalidade.

Muitos policiais insistem para que o povo seja reeducado, então a visão deles do uso das armas de impacto mais favorável, mas tal "reeducação" seria extremamente difícil, se não impossível, de se implementar. Eu sugiro que uma estratégia mais realista seja usada para treinar os policiais a realizar seus serviços de modo consistente e com percepções públicas.

Numa vasta maioria de encontros que requerem a força, o policial usa arma de impacto ou se engaja em combates mão a mão. O treinamento para a execução da lei deve refletir esta realidade.Uma forma de fazer isto é treinar o policial em técnicas de Aikido. O treinamento básico de Aikido envolve técnicas mão a mão, que podem ser adaptadas ao uso policial. Ele envolve também treinamento com bokken e como extensão do corpo, e os movimentos com estes instrumentos de treino podem facilmente ser adaptados para o uso com as armas de impacto policiais. Desde que as técnicas de Aikido enfatizam o controle através da captura da harmonia e movimentos cooperativos em vez de oposição da força pela força, seu uso pode evitar a aparência, tanto quanto a realidade, da brutalidade.

O treinamento de Aikido pode também ajudar os policiais a lidar os fatores psicológicos que podem levar à brutalidade. Quase sempre, quando um policial está envolvido em uma altercação física, ele ou ela tem medo de se ferir. Como a situação se agrava, a linha tênue entre temor e raiva pode facilmente começar a ficar indistinta, e o sentimento de auto segurança pode se tornar num desejo de "pagar na mesma moeda". O treinamento - e somente o treinamento - pode reduzir o temor, prevenindo sua degradação em raiva e brutalidade. Nenhuma quantia de ameaças ou ações punitivas podem tratar este assunto da natureza humana.

Na minha opinião, Aikido é perfeito para o tratamento deste assunto de brutalidade policial. A policia precisa estar treinada para gerar confiança, reduzir o medo, e então reduzir a tendência no que diz respeito à brutalidade. Quando efetuando prisões hostis, eles precisam técnicas de controle efetivas que não serão vistas como brutais pelo público, mídia ou judiciário - técnicas que pareçam não ter a função de machucar ou matar. Mais do que técnicas baseadas na resistência e força, a policia precisa de técnicas baseadas na filosofia do Aikido de "cedendo para alcançar o seu caminho".

Clarence Conwel, que treina no Musubi Dojo em Claremont, Califórnia, é delegado no Condado de Los Angeles.

O Instituto Takemussu desenvolveu um curso especifico para policiais dentro da linha deste artigo. Detalhes podem ser vistos no site http://www.aikikai.org.br/takemussu.policial

Traduzido por Paulo Kharmandayan - Instituto Takemussu Dojo Central




 

 

 

 

 

 


Copyright © 1996 Instituto Takemussu Brazil Aikikai.