ARTIGOS E ENTREVISTAS

Até o presente, e deste ponto em diante
por Akiya Hideo



Do macaco ao homem
O ano de 2001 chegou, o amanhecer do século 21. Há mais de 30 anos, 2001: Uma Odisséia no Espaço, o fantástico filme de Arthur C. Clark e Stanley Kubrick, precedeu a chegada do Apollo 11 a lua, e com suas cenas realísticas ainda vivas na minha memória fez-me imaginar como viria a ser a era espacial.
A brilhante, imensa alvorada sobre a África Oriental pré-histórica acordou os antigos ancestrais da humanidade de uma noite preta como piche. Eles, então, encontram o Monólito.
Dentre o incontável número de espécies neste planeta, apenas um tem a capacidade de andar ereto (bi-pedalismo), mãos habilidosas, habilidade lingüística e um enorme cérebro para controlá-los - os humanos. Os humanos desenvolveram essas funções num período de 4 milhões de anos de evolução, a partir do hominídeo de grande semelhança ao macaco. Para nós não há nada peculiar ou difícil em se ficar em pé e caminhar sobre duas pernas mas, comparando a forma de se ficar em pé do homem moderno com uma figura hipotética dos primeiros homens, que não diferia muito do macaco, percebemos o longo caminho percorrido.
Com aquelas duas pernas a raça humana desceu das árvores, correu pelas planícies, cruzou rios e subiu montanhas. Aquelas mãos habilidosas construíram navios para cruzar os oceanos e aportar em todos os lugares. A imaginação que brotou naquele cérebro deu aos humanos a habilidade para voar e viajar para o espaço.
E finalmente, em 2001, os humanos encontrarão novamente o monólito na superfície da lua...


O crescimento do cérebro humano
Humanos, que se consideram os primatas mais evoluídos, são os animais mais incapazes ao nas-cer. Cavalos começam andar nas quatro patas assim que nascem, e é dito que mesmo os macacos, depois de uma semana, comportam-se como adultos. Mas os humanos não conseguem andar ime-diatamente. Não somente isso, o cérebro é completamente subdesenvolvido. As células do cérebro estão completas e em quantidade assemelham-se aos adultos mas as conexões entre os nervos não estão lá. A inabilidade para andar não é só uma questão de desenvolvimento muscular e ósseo, mas a falta de um cérebro desenvolvido.
O cérebro humano passa por vários estágios rápidos de desenvolvimento. Mudanças mentais vi-síveis ocorrem do 0 aos 3 anos e depois dos 4 ou 5 aos 10. O primeiro é o "estágio da imitação", no qual toda palavra e ação é simplesmente absorvida de maneira direta. O segundo estágio é o "está-gio da criação". Surge um ego e começa-se a pensar como um indivíduo. A capacidade de pensar e criar idéias, a força de vontade e a sensibilidade desenvolvem-se nesse estágio. As conexões do cérebro humano encontram-se quase completas neste estágio, estando completas mais ou menos aos 20 anos.
Contudo, para que uma pessoa se estabeleça como um ser humano distinto ela depende ampla-mente das suas muitas experiências como educação acadêmica, amizades, empregos, passatempos e atividades sociais, após o segundo estágio acima mencionado. No "estágio de formação humana" os sonhos da pessoa para o futuro, as decisões quanto o caminho a seguir e metas claras, de vida, são formadas.

Desenvolvimento contínuo
Tem sido falado que o desenvolvimento humano é critico durante a juventude, como também costumam dizer: "Forjem o aço enquanto esta quente". Todavia, Hatano Giyo-o escreve em "The Psycology of Lifelong Development" que os humanos podem continuar desenvolvendo sua sabedo-ria muito além de seu ápice físico. O desenvolvimento da habilidade mental continua por toda vida, para o aprimoramento do ser. Pode-se chamar a isso, como o shihan Endo sempre diz, de um pe-ríodo de "auto-realização".

Imitação, criação, e então para o desenvolvimento de um Aikido vitalício
Podemos entender "auto-realização" como tendo implicações de senso moral ou ético. Eu sinto que pode ser compreendido simplesmente como o processo de desenvolvimento que o cérebro atra-vessa, da infância à maturidade, no crescimento dos organismos biológicos chamados humanos. E eu tambem sinto que este mesmo processo esta presente no aprendizado do Aikido.
Vinte e tantos anos atrás, quando ingressei no Hombu Dojo, eu não tinha a mínima idéia do que era o Aikido. Mais do que apenas diversão, eu ia para as aulas simplesmente sentindo um tipo de prazer pelo desconhecimento. A minha curiosidade pelo desconhecido era satisfeita, durante o pro-cesso de aprendizado de técnicas, observando e imitando. Era realmente um período de imitação.
Depois de conseguir fazer o kata básico, eu tentava melhorar entre erros e acertos. Houve um tempo em que eu me questionava o porque de não conseguir me movimentar graciosamente como este ou aquele shihan. Mas eu compreendia que mesmo conseguindo, não seria a minha maneira. Eu estava muito consciente de estar tentando achar o meu próprio jeito, na época em que recebi meu 2º grau. Naquele tempo eu conseguia praticar durante toda a aula sem perder o fôlego, e realmente sentia o prazer da prática. Muitas vezes as minhas experimentações eram bem sucedidas mas na maioria das vezes falhavam. Mesmo quando eu achava que haviam funcionado, na aula seguinte não funcionavam. O esforço, na tentativa de achar caminhos que funcionassem e me servissem, se tornou mais interessante.
Do ponto de vista da dinâmica haviam maneiras de melhorar coisas como mover meu corpo ou como usar efetivamente minha mao para mover meu parceiro. Estas duas maneiras podem, teorica-mente, ser misturadas e, até certo grau, apresentar resultado positivo. O que era problemático con-tudo, era não ser capaz de mover meu corpo da maneira que eu queria. Havia também o fato do meu parceiro não se mover do jeito que eu queria. Quando comecei a me sentir assim, os próprios senti-mentos se confundiam e não atuavam como eu desejava. Como tentando desatar um nó, eu tinha que me desfazer de vez dos meus pensamentos antes de proceder com a próxima inovação. Esta construção e rejeição, de teorias, tem se repetido desde aquela época.

Expressão partindo do movimento físico
"Se expresse". Provavelmente se passaram 16 ou 17 anos desde que shihan Watanabe me disse isso, no Hombu Dojo, enquanto praticando katate-dori kokyunage. Eu me recordo como aquelas poucas palavras fizeram meu coração disparar. "Entao é isso. É expressao". Pouco tempo antes, na televisão, o Sôke (diretor) da Ogasawara-ryû Reihô falou: "Reihô é a expressão dos sentimentos através de uma forma. Antes que os detalhes do kata, é mais importante transmitir á outra pessoa o seu coração e sua mente através de ações repletas de sentimento". Então, eu só pensava: "Sim, eu vejo. Pensando desta maneira não é tão difícil". Mas quando ouvi as palavras do shihan Watanabe, tudo se esclareceu.
Como mover um outro corpo? Não é o suficiente organizar biodinâmicamente quais musculos mover e em que ordem, ou aonde se posicionar e com qual postura. Pensemos desta maneira: "Qual a intenção ou sentimento necessário para mover um outro corpo, afetando assim o nosso parceiro? De qualquer forma, sentimentos surgem naturalmente não sendo simples optar por um sentimento específico para uma dada situação. Como saber? Esta tem sido uma das minhas dúvidas no Aikido por muito tempo.

Os movimentos do Aikido e o uso da mente
Os sentimentos ou estados de espirito são coisas que se manifestam naturalmente em nossos cor-pos. Eles aparecem em nossos olhos, rostos, nossas posturas e em cada detalhe de nosso comporta-mento. Geralmente os sentimentos ruins como irritação, insegurança, nervosismo e depressão, entre outros, são facilmente identificados.
O medo, a perturbação, excitação e hesitação influenciam muito nossa postura corporal e nossas ações. Quando uma lâmina chega bem perto do nosso nariz sem nos tocar, não deveríamos sentir dor alguma. Mas nosso cérebro responde rapidamente a informações enviadas pelos olhos e ouvi-dos. Ele nos mantém em estado de alerta. Se esta situação trouxer medo, nosso corpo não conse-guirá se mover. Algo bloqueia a ação originalmente pretendida.
Se os movimentos do corpo são uma expressão da mente devemos, então, tê-la em bom estado. Será que é possível controlar nosso próprio estado mental? Como podemos faze-lo?
No Aikido, todos os shihan dizem que é preciso relaxar e ser flexível. Se nosso estado mental se reflete naturalmente nos movimentos corporais, então, movimentos livres de tensão devem vir de uma mente relaxada. Relaxar não significa simplesmente aliviar as tensões musculares. É preciso livrar a mente de uma tensão desnecessária para se ter liberdade de espírito. Com esta liberdade calmamente percebemos os movimentos do nosso parceiro e um poder de concentração surge, per-mitindo ver tudo.

Eu dou um jeito
Refletindo sobre meu próprio treinamento, até recentemente era suficiente eu ter em mente coi-sas como: "Tudo bem, eu dou um jeito". "Eu não preciso ficar nervoso, é só levar numa boa". "Não preciso me preocupar, tudo sairá bem". "Mesmo que eu cometa um erro, de alguma forma conser-to". Se eu mantivesse meu sentimento assim livre , eu sentia que as coisas andavam mais facilmente
Meu parceiro vem com um shomen-uchi. Eu avanço para encontrá-lo. Sentindo a necessidade de uma resposta imediata minha mente aguarda até o último instante, o momento do de-ai (encon-tro). Minha decisão quanto a reagir ou aguardar agora é atrapalhada por vários sentimentos que me tocam, como a insegurança pela possibilidade de cometer um erro, a impaciência por querer atingir uma posição mais vantajosa que a do meu parceiro, ou por subestimar sua força. Eu não necessito destes sentimentos. Eu deveria jogá-los fora, esquece-los, ignorá-los. É mais importante eu simplesmente captar o instante do de-ai com exatidão e colocar em ordem minha postura, respira-ção e movimento. Eu só preciso deixar meu corpo se movimentar naturalmente e fazer o contato usando minha mão espada como se convidado a pegar algo. A velocidade e a força do meu parceiro são diretamente transmitidas para min. Quando a força que saiu de dentro de mim e a força que recebi do meu parceiro se encontram com precisão eu sinto "que fui bem", ou no mínimo "que dei um jeito".
Talvez seja demais chamar a isto de inovação mas, a caminho do dojo ou a caminho de casa eu revirava as memórias dentro da minha cabeça. Eu tentava recordar as sensações do meu corpo em várias situações. Eu penso que fazendo isso, junto com meu treino, naturalmente fui desenvolvendo esta consciência do "eu dou um jeito".
O controle sobre um outro corpo depende claramente do cérebro aonde se aloja a mente. Porém, não se consegue uma boa movimentação tentando extraí-la de um programa como num computador.
Ver e memorizar os movimentos de um mestre não é o suficiente; o único modo é acumular prática e através da experiência "gravar" na memória. Isto é estudo, e o esforço para faze-lo repetidas ve-zes e icorporá-lo é tanren (treinamento). Para "gravar" definitivamente é importante dar continuida-de ao processo.

De agora em diante
A minha noção de "deai num instante" começou a piorar de uns 5 ou 6 anos pra cá. Meus reflexos estavam evidentemente lentos. Logo de início notei a minha visão. Eu sentia que não conseguia enxergar com exatidão a velocidade dos movimentos do meu parceiro. Não eram apenas os meus olhos; meu corpo todo estava perdendo a potência que um dia tivera. Eu comecei a pensar que o "eu dou um jeito" não era mais suficiente. Talvez agora eu precise melhorar minha concentração, polir meus sentidos mais precisos e ter uma "visão" mais profunda. Será o meu aikido um caminho de eterno desenvolvimento? A partir de agora. saberemos.
Acho que darei maior atenção as minhas pernas. Por ser um ser humano, os fatores de maior importância para a movimentação do meu corpo são minhas pernas e quadril. Todos nós começamos como toda criança, caindo frequentemente quando aprendendo andar. É estranho como as pessoas adultas raramente caem, o que nos mostra que os humanos realmente precisam de muita prática para andar sobre duas pernas.
Na dança, no Nô, no Kabuki ou em todas as formas de arte que usam a expressão corporal, o andar, as maneiras de se usar as pernas e a postura são fundamentais. As formas, em todos eles, parecem iguais mas, ao examinar-mos melhor notamos as muitas diferenças. Uma coisa é chamada de arte porque todo e qualquer de seus movimentos são lindos. Uma pessoa caminhando pode parecer que esta apenas se movendo naturalmente mas, as vezes, podemos perceber a profundidade do treinamento e das inovações que se escondem por trás de sua técnica. Depois de adultos não damos muita importância ao fato de caminhar, chegando ao ponto de, praticamente, ignorar os caminhos por que passamos todos os dias. Poderíamos afirmar que isto acontece porque nossa programação para caminhar é bem completa. Talvez, por outro lado, tenhamos parado de "gerenciar nosso caminhar" e abandonado um futuro progresso. Eu imagino que o profundo conhecimento de uma arte e o território de um mestre são construídos com base em um caminhar de nível técnico mais elevado. E tal técnica necessita de uma alma e de uma mente que a complete.
Os seres humanos deram continuidade a evolução, a partir dos macacos, ficando em posição ereta e andando sobre duas pernas. Nós, os humanos modernos ou Homo sapiens, passamos por este processo evolutivo durante o crescimento, de bebe à criança. Depois disso, parece que esquecemos como usar as duas pernas por desfrutar os benefícios de uma civilização que construímos para nós mesmos. Deixemo-nos partir de novo, neste século, numa jornada para ver se conseguimos que nossos corações e mentes liderem nossa caminhada.

Traduzido por Erich Marinelli, Shodan - Instituto Takemussu Dojo Central




 

 

 

 

 

 


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