ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
Entrevista com Seiseki Abe

por Stanley Pranin e Ikuko Kimura

Renomado Calígrafo e mestre de Aikidô relembra suas experiências como estudante e professor de Morihei Ueshiba

Você é um conhecido mestre da Caligrafia. Como começou o "Caminho da Escrita" ?
Eu era professor escolar, inicialmente na escola primária, então numa escola de meninas e posteriormente nos níveis júnior, secundário sênior e universitário. Naquele tempo eu me perguntava freqüentemente: qual é a coisa mais importante que se pode trans-mitir aos estudantes ? Uma das respostas a que cheguei foi "aprecia-r, valorizar e honrar nossos pais". Esta conclusão foi provavelmente influenciada, em grande parte, pela tradição da cultura japonesa de levar em consideração a família e os antepassados antes de pensar em si mes-mo. No meu caso, meu pai esperava se tornar um calígrafo, assim pensei no Caminho do Pincel como o melhor modo de o honrar. Conseguir isto se tornou uma de minhas metas de vida. Por coincidência, o nome de minha mãe é "Fude", que também é a palavra japonesa para pincel! De qualquer maneira, parecia ser parte de meu destino tornar-me um calígrafo. Meu pai havia estudado Caligrafia com Ekido Teranishi, calígrafo famoso de Osaka, e porisso o estilo de meu pai sofreu influência do estilo de Teranishi, até se tornar ele mesmo bastante hábil. Assim, eu era provavelmente a pessoa mais apropriada para continuar como seu sucessor e foi isto que me levou à Caligrafia

A Caligrafia tem sido uma tradição em sua família ?
Assim tem sido. Desde sem-pre lembro-me de praticamente todos os cômodos da casa enfeitados pelos trabalhos caligráficos feitos pelas gerações anteriores.

Ouvi dizer que em certo ponto em sua carreira de Calígrafo você se encontrou em um impasse - um período de estagnação, se entendi - e então você descobriu um grupo chamado "Misogikai", que o ajudou a superar a barreira. O que poderia falar para nós?
O crescimento de uma pessoa como calígrafo passa por várias fases: inicialmente você é ensinado sobre como trabalhar a "forma" ou o "padrão" dos caracteres. Felizmente, há tantos exemplos de belas formas - considerando desde a Dinastia Han na China - que não há porque estagnar-se quan-do se está explorando a forma. Onde comecei a ter dificuldades foi em minha exploração da "linha" (embora esta palavra possa ser um termo muito simplista para o que significa na realidade), que é o que se trabalha após ter certo domínio da forma. Além disso, trabalha-se com os conceitos de "densidade" e "espessura", e estes ainda são simples de se entender; mas mais além tem que se trabalhar com "profundidade" e "superficialidade". Superficialidade é ainda simples de se entender, mas o que eu estava tendo dificuldade era como adicionar a profundidade às minhas pinceladas. Pro-fundidade é a menos visível das qualidades, contudo é uma das qualidades que dão vida a uma obra caligráfica, tanto que pode ser considerado o coração e a alma da Caligrafia Japonesa. O grau de densidade ou espessura é uma qualidade relativamente visível, que determina se uma linha tem a energia ou vigor pretendido pelo artista, mas qua-lidades como profundidade (e tam-bém "altura"), invisíveis ao olhar, são muito esquivas à visão. Neste ponto, meu crescimento como Calígrafo entrou num impasse. Foi naquela época que pela primeira vez encontrei o Misogi no Renseikai (Sociedade para Treinamento do Misogi), de Kenzo Futaki. Kenzo era Doutor em Medicina e um estudante no pré-guer-ra de Morihei Ueshiba, O Misogikai foi um grupo que se dedicou a explorar e divulgar métodos que pretendiam descortinar um tipo de força psicológica ou espiritual, que estava além de mera força física - métodos que hoje chamamos de Misogi (purificação) para expandir o ki. Pareceu-me ser exatamente o que estava precisando. A data de inscrição já havia passado, mas fizeram-me uma exceção e pude me unir à primeira sessão, que foi administrada como um treino de campo, consistindo em uma semana de seminários.

O Misogikai foi criação de Futaki Sensei?
Sim, foi ele quem o fez crescer, embora os métodos de treinamento tenham sido formulados Bonji Kawatsura [filósofo que organizou e formulou as práticas Misogi Japonesas], foram ensinados no Misogikai por um dos estudantes de Kawatsura Sensei, Ken Tatsumi.

Quais eram estas práticas?
Há oito principais. De pé sob a água fria (mizu no gyo) é um dos mais conhecidos. Os oito incluem norito no sojo, mizu no gyo, furitama no gyo, ama no toribune no gyo, chinkon no gyo, genshoku no gyo e bunkon toitsu no gyo.

Estas práticas são relacionadas à religião Omoto?
O que Futaki Sensei e Kawatsura Sensei estava fazendo não era baseado em religião, mas nas tradições e costumes japoneses. Práticas de Misogi são formalizações dos vários costumes comumente seguidos pelos japoneses em suas vidas diárias desde os tempos antigos. Não são, em outras palavras, derivadas do Budismo indiano ou Con-funcionismo chinês, mas de práticas japonesas antigas que estão claramente documentadas em trabalhos como o Kojiki (Re-gistros de Assuntos Antigos). O trabalho de Kawatsura Sensei consistiu em despojar estas formas de modo às tornar aces-síveis a qualquer pessoa que as queira praticar.

Com seus livros, Kawatsura Sen-sei é a maior autoridade sobre o Misogi?
Entre os melhores escritos provavelmente está sua obra em dez volumes: "Bonji Kawatsura: Collected Works". Embora escrito no estilo chinês formal (Kambum) ainda é provavelmente o mais acessível trabalho sobre Misogi para pessoas leigas. O tratamento do assunto dá aos leitores uma excelente visão geral de Kawatsura Sensei, embora sendo ele um filósofo e especialista em religião, a discussão às vezes torna-se bastante sofisticada e difícil de seguir em certos trechos. Por outro lado, Futaki Sensei era um médico formado pela Medicina moderna, assim é o de compreensão mais acessível. Era também um especialista no Kojiki; no Misogikai apresentou suas interpretações do Kojiki e dos norito como sendo compostas por frases formalizadas ou preces, formuladas no idioma clássico, endereçadas às deidades presentes nos rituais Shinto.

Estas interpretações eram parte do programa do seminário ?
De fato, eram o foco principal do seminário. Entre sessões de treinamento em água fria nós escutávamos Futaki Sensei dissertando suas interpretações do Kojiki e norito. Os treinamentos em água fria duravam de trinta minutos a uma hora, quatro vezes por dia (uma vez pela manhã, duas vezes pela tarde. e uma vez pela noi-te). Futaki Sen-sei tam-bém era defensor entusiás-tico da alimen-tação à base de arroz integral. Reduzir o consumo de comida é um dos aspectos mais difíceis da prática do misogi, mas considerado de suma importância, baseado na idéia que alimentando-se com uma quantidade normal, sua mente passa a ter somente pensamentos normais. O arroz integral é bom para isto porque é um dos melhores alimentos que você pode fornecer ao seu corpo. Pelo fato de não ser refinado, é o mais próximo do arroz vivo - brotaria se você o plantasse, por exemplo - assim comer pouco disto é o suficiente. Então temos inicialmente a redução do consumo de comida, auxiliada pelo arroz integral; daí parte-se para o treinamento na água fria. A água fria vertendo de cima naturalmente resfria seu corpo, o que conduz então à prática de furitama e, depois, chinkon kishin. Ao cumprir-se estas práticas, sente-se um grau de esclarecimento e um estado de engrandecimento e aprofundamento espiritual que é inexprimível em palavras, um estado de mente e corpo no qual nós sabemos o que é verdadeiramente viver e estar vivo.

A prática do Misogi permitiu-lhe superar a paralisação completa você enfrentou em sua Caligrafia?
Mudou a atitude e o modo de pensar sobre minha caligrafia. Isto foi na mesma época em que que Futaki Sensei recomendou minha iniciação ao Aikidô. Ele me demonstrou um arremesso e fiquei extremamente impressionado. Ele disse: "Nossa nação é o lar de um budo maravilhoso como este, e eu recomendo veementemente que você o leve a cabo se você tiver uma chance. Vocês, jovens deste dias, parecem ter perdido o rumo e penso que isto lhes faria muito bem". Sua técnica era tão impressionante que eu tinha certeza de que o Aikidô estaria em meu futuro, embora não soubesse como ou quando eu acharia um mestre. Com a guerra se tornando mais intensa, Morihei Sensei raramente ensinou para o público em geral e dedicou a maior parte de seu tempo ensinando em lugares como Toyama Gakko e Nakano Gakko, instituições militares especiais em Tóquio onde ele ensinava.

Seu estudo de misogi Kojiki o preparou naturalmente para levá-lo ao Aikidô. Como conheceu Ueshiba Sen-sei ?
Bansen Tanaka [1912-1988] abriu um dojo de Aikidô em Osaka em 1952. No dia seguinte à abertura aconteceu de eu estar passando e notei o nome "Tsunemori Ueshiba" na placa da porta. Tanaka e eu nos conhecíamos, embora não soubesse que ele havia feito Aikidô. Vi que ele estava em casa, assim entrei e disse: "No-tei o nome na placa. Ueshiba Sensei está realmente aqui ?". Respondeu que realmente era ele e que o Dojo havia sido aberto poucos dias antes. O próprio Ueshiba Sensei apareceu depois de pouco tempo e assim foi a primeira vez que o vi. Quando me apresentei como um estudante de Futaki Sensei ele tomou um interesse imediato por mim e me disse que entrasse. Então começou a falar sobre várias coisas difíceis - conceitos muito sofisticados que têm a ver com chinkon kishin e assim por diante. Falou por um bom tempo e, quando ele tinha finalmente terminado, disse: "Isso é tudo por hoje. Venha amanhã novamente!".

E você se tornou seu aluno naquele dia ?
Sim, e me considero muito afortunado, pois naquele tempo era muito raro ele assumir alunos novos. Na ocasião ele geralmente não ensinava ninguém que não viesse com pelo menos duas indicações formais.

Qual a influência que a prática do misogi e de Aikidô tiveram sobre sua Caligrafia?
Para mim, os três convergiram. Aikidô, por exemplo, não é no final das con-tas simplesmente torcer pulsos, causando dor, ou arremessar pessoas; é sobre o cultivo do ki, o que é algo completamente diferente daquilo. O mesmo é verdadeiro sobre a Caligrafia: há cinco ou dez mil caracteres que nós podemos pintar, aprendendo sobre a forma e a linha, mas ao final nós somos atraídos por algo que está além daquilo, e este algo nada mais é que o ki. Assim Caligrafia e Aikidô tornaram-se uma só coisa em minha mente e eu comecei a praticar ambos com o mesmo entusiasmo.

Você certa vez observou que "a essência da Caligrafia reside no kokyu [lit. respiração]". É este o mesmo tipo de kokyu que nós nos referimos em Aikidô?

É o mesmo. Isto traz a seguinte questão: "o que exatamente estamos ensinando quando ministramos Caligrafia?" Nós ensinamos a forma e como desenhar os caracteres, mas penso que se não formos capazes de ensinar um certo algo a mais, então a Caligrafia perderá a vida e não interessará as pessoas.

Este "algo mais" é mesmo importante, não ?
Realmente é. Infelizmente, embora atualmente a Caligrafia tenha se tornado popular, tenho sentido que à maioria não se oferece o potencial para descobrir o "algo a mais".

Você considera que se deve desenvolver por conta própria, através da prática sincera e pelo trabalho concomitante ao próprio processo de aprendizado?
Sim, e uma vez que se tenha conseguido, você pode começar exteriorizar seus sentimentos para além de suas próprias habilidades, executando peças fisicamente grandes ou grandes quantidades de peças, e você pode passar tudo o que você aprendeu - o que você vislumbrou - para a próxima geração. Em outras palavras, neste ponto suas atividades ficam focadas ou na sua própria transformação, repassada em seus trabalhos, ou colocando-se em uma posição intermediária, na qual se dá aos outros o que você tem, ou então ambos.

Como Morihei Sensei foi levado à Caligrafia ?
Parece-me que na verdade ele teve alguma prática antes de nos conhecermos, embora duvide que algum destes trabalhos tenha permanecido. Em 1954 acompanhei Morihei Sensei a Shingu para a abertura do Dojo de Michio Hikitsuchi. Nós permanecemos lá por volta de um mês, e visto que Morihei Sensei odiava ver as pessoas ociosas, ele me pediu que ensinasse Caligrafia entre as aulas de Aikidô. Um fotógrafo de nome Kuba formou um grupo de estudantes e subitamente me achei com um trabalho de meio período! Morihei Sensei observava-me enquanto eu lecionava e gradualmente acabou por se interessar. Antes que me desse conta, ele estava dizendo: "Bem, talvez eu mesmo pudesse fazer algo...". A primeira peça que pintou foi a palavra "aiki", embora eu não esteja seguro sobre onde esteja esta peça hoje. Depois que retornamos de Shingu, ele começou a visitar minha casa para passar dias inteiros praticando Caligrafia. Ele parecia divertir-se muito com isto.

Como é "ensinar" seu próprio professor?
Ele era meu mestre de Aikidô, assim era impensável "ensinar" no sentido usual da palavra. Em lugar do método usual de lhe dar uma amostra de meu trabalho para ele praticar copiando, eu simplesmente solicitei polidamente para que me observasse pintando os traços. Assistindo-me ele sempre diria coisas como "Ah, sim, agora vejo como você escreveu aquilo!". Um das coisas mais difíceis era que ele escrevia tão rápido que eu tinha de dificuldade em clarificar-lhe o espaço para a assinatura. Só há um lugar satisfatório para a assinatura, assim eu tento escolher o instante exato de o fazer - usando uma forma de aiki - apontando um lugar de tal maneira que efetua-se a pincelada perfeitamente e sem interromper o fluxo. Há uma peça caligráfica incomum que Morihei Sensei fez usan-do seu dedo no lugar do pincel. Exemplos de peças caligráficas feitas com dedos exis-tem, assim imagino que ele deve ter ouvido falar sobre isto e decidiu-se a tentar o mesmo em sua caligrafia. A maioria das pessoas não teria pensado em fazer uma coisa dessas. Morihei Sensei tinha uma certa tensão interna sempre que usava o pincel. Imagino ser porque ele pretendia expressar-se por inteiro na peça. Usando a tinta como um instrumento, ele transferia seu ki para dentro dos caracteres quando os pintava. Olhe para os seus trabalhos e você imediatamente pode senti-los imbuídos de um ki incrivelmente forte. Curiosamente, os estrangeiros que não conhecem japonês às vezes são os mais sensíveis a isto. O espírito da Caligrafia de Ueshiba Sensei reside não nas formas dos caracteres, mas em sua ressonância e iluminação. Similarmente, este espírito não reside em Aikidô nas técnicas que se pode ver com seus olho-s, mas justamente no que não se pode ver. Morihei Sensei sempre executou seus trabalhos caligráficos de uma só penada, mas tam-bém sem pensar demasiadamente em sua respiração (kokyu). A mesma coisa quando executava exer-cícios como furitama e otakebi [no Shin-toísmo, grito vigoroso com o propósito de atrair deidades]. Ele sempre nos disse para respirar três vezes antes de iniciar o furitama, sendo o principal ponto agir sem consciência, em primeiro lugar estabilizando a respiração em seu centro e usan-do aquela estabilidade como um ponto de partida para respirar naturalmente. Esta ênfase na respiração naturalmente é uma conexão adicional entre Aikidô e Caligrafia.

Você começou sua carreira no Aikidô como um uchideshi?
De acerto modo, sim, mas na época era Morihei Sensei quem ia à minha casa para praticar Caligrafia. Isto me pôs na posição bastante incomum de ser um uchideshi em minha própria casa! Nós providenciamos um cômodo à parte especialmente para ele, e desta maneira nós desenvolvemos nossas relações como estudante e professor. No entanto, era uma relação de aluno-mestre ao velho estilo, baseadas nas rígidas atitudes do bushido. A disciplina não foi imposta externamente, pelo contrário, eram as atitudes e comportamentos que qualquer uchideshi naturalmente se sujeita quando no desejo de servir seu professor. Este realmente é o único modo de verdadeiramente compreender e absorver o kokyu de seu professor. Viver sob o mesmo teto vinte e quatro horas por dia não só lhe dá acesso às habilidades técnicas de seu mestre mas também uma com-preensão do modo como ele vive e respira, seu tipo de vida e seus ritmos. É uma oportunidade para treinar e disciplinar o ki e no processo conhecer todos os lados de seu mestre. Mo-rihei Sensei tinha por hábito efetuar visitas de uma semana a dez dias de cada vez, e ter tal contato com sua vida e por tão extensos períodos foi uma experiência verdadeiramente surpreendente e preciosa.
Por exemplo, ao preparar chá, eu tinha que sentir ou julgar a sua sede e ajustar a temperatura adequadamente. Ou preparando seu banho, tinha de ter o mesmo cuidado para deixar a água na temperatura certa - e não simplesmente esticar minha mão para testar diretamente mas, ao levar os baldes de água quente, julgar a partir disto. Se punha minha mão diretamente na água, um mínimo de óleo de minha pele penetraria na água e ele perceberia. Em outras palavras, servir seu próprio mestre é ser sensível e conscienci-oso e fazer as coisas correta e adequadamente, sem usar truques ou atalhos. Até mesmo ao dormir em um quarto adjacente, meu kokyu teve de ser emparelhados com o dele o tempo todo. Tais experiências são a parte maravilhosa de ser um uchideshi.

A dieta de Morihei Sensei era influenciada pela recomendação de Futaki Sensei para se alimentar de arroz integral ?
Ele sempre comia arroz integral quando ficava em casa. Certa vez, Futaki Sensei disse-me que se eu tivesse oportunidade, eu deveria fazer Morihei Sensei experimentar arroz integral. Quando eu mencionei isto para Morihei Sensei ele apenas disse: " Eu percebi... " e dali em diante sempre comeu arroz integral toda vez que ficava conosco.

Como você interpreta o Aikidô a partir de seus estudos do Kojiki?

Pessoalmente não tenho nenhuma interpretação própria do Kojiki. Há muitas pessoas que vieram aprender comigo, mas eu quase nunca falo sobre o Kojiki quando lhes ensino Aikidô. Con-sidere a idéia de Ama no Minakanushi. Considerando-se de uma perspectiva religiosa, provavelmente tem-se uma visão de Ama no Minakanushi como uma deidade específica a ser reverenciada. Mas como um moderno Doutor em Medicina, Futaki Sensei evitou este tipo de idolatria. Apesar de conversar sobre coisas como kotodama, ele interpretou-os numa linguagem moderna. Sua interpretação para Ama no Minakanushi, por exemplo, é a seguinte: Ama, literalmente, significa "celestial" ou "divino"; é simplesmente um termo respeitoso. No é um simples conector gramatical; Mi é o prefixo respectivo. Isso deixa naka (centro, meio) e nushi (lorde, o senhor, o proprietário de). Ele sentia, então, que Ama no Minakanushi não representava nenhuma deidade observan-do-nos de uma perspectiva divina no cosmos, mas referia-se, ao invés disto, ao primeiro ancestral de nossa nação que, de acordo com Futaki Sensei, ensina a idéia da "importância do centro" (o centro sendo algo que todo ser humano possui). "Enten-da este centro e acalente-o" era sua interpretação. Ele falou de Aikidô como sendo um movimento circular, dizendo que deve-se achar o centro e conduzir tudo o mais nos círculos que nos cercam. O Aikidô moderno que atualmente praticamos não é diferente disto, no sentido que nós ensinamos as pessoas a ter seu próprio centro, a trabalhar com as forças centrífugas e centrípetas para atrair o parceiro ou fazê-lo girar em torno daquele centro, persuadindo e colocando o atacante em uma posição que nos permita controlá-lo. Estes círculos podem também ser transpostos para a forma tridimensional, quan-do se tornam espirais. Em todo caso, Ama no Minakanushi é o indivíduo que ensinou que "o centro das coisas são importantes ". Esta idéia seguramente é verdadeira em muitos dos aspectos da vida diária. Pense sobre quem está ao centro de uma típica [tradicional] casa japonesa, por exemplo. Pela manhã a esposa é o centro, por aparecer primeiro e começar a preparar o café da manhã. Então o marido vai à mesa e ele se torna o centro quando come e se prepara para ir ao trabalho. O centro então passam a ser as crianças quando estão prontas para ir à escola. Uma vez que todos saíram da casa, a esposa sozinha passa a se tornar novamente o centro quando ela passa a se ocupar dos cuidados domésticos. Outro exemplo seriam nós três participando desta entrevista. Desde que sou eu quem está falando no momento, eu sou Minakanushi. Quan-do você responde ou faz outra pergunta, então você se torna aquele centro. Em outras palavras, o centro é algo que muda. Assim Ama no Minakanushi representa não uma deidade específica ou ídolo, mas o conceito da importância do centro. Este é um exemplo da interpretação de Futaki Sensei sobre o Kojiki.

Estaria correto dizer que o Kojiki estava no centro do pen-samento de 0-Sensei?
Sim, pelo menos em termos de explicação de técnicas. Além disso, o Kojiki é uma das poucas coisas no Japão que é quase absoluto e imutável, contendo em si as tradições e herança xintoístas do povo japonês como nação. A essência ou caminho do Japão é representado no Kojiki, particularmente nos contos até Izanagi no Mikoto e Ama Terasu no O-Mikami. Aquilo no qual nós podemos acreditar fortemente está contido nas lendas que descrevem Ama no Minakanushi pelas primeiras sete gerações divinas da idade dos deuses. Uma leitura detalhada mostra que as interpretações de Onisaburo Deguchi Seishi [1871-1948, co-fundador da religião Omoto] eram bastante apropriadas, pelo menos em termos de kotodama.

Teria sido bastante interessante ouvir uma discussão do Kojiki entre Futaki Sensei e Ueshiba Sensei, não acha ?
Teria sido certamente. Imagino que seria simples para alguém com uma bagagem nas interpretações Omoto do Kojiki entender as interpretações de Futaki Sensei e vice-versa. Alguém com uma com-preensão da interpretação de Futaki Sensei de Minakanushi como "centro" não teriam nenhuma dificuldade de compreensão do tipo de "centro" de que Onisaburo Deguchi falou. A única diferença essencial é as interpretações de Futaki Sensei partem de uma perspectiva científica em vez de religiosa. 0-Sensei e Futaki Sensei diferiram deste modo dentro nas suas interpretações do Kojiki, entretanto não penso que eles tenham alguma vez discutido estas diferenças.

Ueshiba Sensei alguma vez falou sobre suas experiências em Hokkaido?
Ele falava freqüentemente sobre os misogi feitos em Hokkaido. Ele mencionou as abluções feitas em águas geladas em temperaturas abaixo de zero, dizendo que enquanto ele trabalhava duro para cortar um buraco no gelo grosso no primeiro dia, o gelo naquela mesma área estava mais fino no dia seguinte, e assim não era tão difícil.

Você fez um estudo extenso dos doka (lit: " Canções do Caminho") de Ueshiba Sensei. Poderia nos dar sua avaliação para entendermos melhor Ues-hiba Sensei levando em conta estes versos?
Uma coisa que notei é que há uma certa consistência no foco que transpassa os doka de Ueshiba Sensei, uma consistência que sugere que seria melhor evitar dividir - como foi feito anteriormente - em doka pré e pós-guerra. Os doka são focados não tanto nas pessoas ou coisas na esfera humana, mas em como elas são o universo em si, e em oferecer pistas sobre como estar em harmonia com este universo. Isto é certamente verdade nos doka pós-guerra. mas os doka pré-guerra também são caracterizados por este foco. Os doka de ambos os períodos expressam a idéia de que "bu" (o marcial) é amor ("bu wa ai nari") e interpreta a espada como "a espada gerando a vida" (katsujinken). Esta idéia de bu como uma manifestação das qualidades do amor e harmonia é consistente ao longo dos doka de 0-Sens-ei.

0-Sensei compunha seus doka como trabalhos de Caligrafia ?
Não, freqüentemente escrevia à caneta em algum de seus pequenos cadernos que ele levava em sua bolsa. Um deles permanece em minha casa até hoje e eu o considero um grande tesouro. Ele tinha uma grafia muito bonita. 0-Sensei começou a man-ter um diário na época de sua experiência de iluminação, por volta do fim da era Taisho [1912-25], e ele continuou por muitos anos. Sendo profundamente instruído, usou um estilo manuscrito japonês de caligrafia conhecido como "hentai kana", um estilo cursivo silábico bastante incomum. Os doka de Morihei Sensei são recheadas de referências à teologia Omoto, mas a essência de seu espírito vai além do Omoto para abarcar o "espírito de harmonia" japonês e também o kotodama wa [palavra para harmonia]. Por conseguinte, considero que é melhor ver e entender os doka dentro de um contexto histórico em lugar de um contexto religioso. A iluminação que Morihei Sensei alcançou pelo seu treinamento o engrandeceu enor-memente como ser humano e artista marcial, e este crescimento é claramente visível nos sete ou oito temas diferentes aos quais ele se referiu nos doka, um dos quais, por exemplo, faz referencia às "técnicas divinas de Odo". O estudo de Morihei Sensei de Daito-ryu e o seu envolvimento na religião Omoto obviamente o influenciaram grandemente, mas suspeito que a firmeza de seu treino de misogi, que praticou desde muito cedo, foi também de suprema importância para que se tornasse quem se tornou. Ele mesmo sugeriu isto em declarações como "Ai-kidô é misogi". Ponha isto de uma maneira ligeiramente diferentemente: "Aikidô são as divinas técnicas de Odo" [de acordo com o Kojiki, Izanagi no Mikoto, ao escapar do mundo da morte, fez uma purificação ritual em Awa-kihara pelo Odo (lit: "boca estreira do rio") Quando que ele se livrou das impurezas, os kami ou "deidades" nasceram. Então quando ele entrou na água e se purificou, mais kami nasceram. 0-Sens-ei disse que o Aikidô nasceu como resultado das impurezas sobre Izanagi no Mikoto durante sua purificação misogi]. No meu ponto de vista, o propósito vital de Morihei era essencialmente a propósito das técnicas divinas de Odo.

Você tem algum plano específico para ajudar manter o espírito de 0-Sens-ei vivo de forma que outros possam continuar conhecendo e experimentando ?
Eu me sinto muito endividado com 0-Sensei e também estou de posse de muitos dos seus trabalhos caligráficos, assim considerei publicá-los em algum tipo de coleção póstuma. Eu já esbocei um texto sob a supervisão de Kisshomaru Sensei, mas restam alguns artigos que ainda gostaria de acrescentar. Desafortunadamente, não tenho podido continuar nem fazer algum progresso, mas futuramente espero publicar os trabalhos de Morihei Sensei de forma que os praticantes de Aikidô de todo o mundo possam obter inspiração através deles e também adquirir o sentimento de quem foi Morihei Ueshiba. Depois disso que espero alojar estes trabalhos em algum tipo de tipo museu memorial de forma que os praticantes de Aikidô de todo o mundo tenham uma oportunidade de conhecê-los em primeiro mão. Eles simplesmente são por demais preciosos para ficarem isolados longe da vista de todos. Gostaria de os tornar acessíveis de forma que todo o mundo possa ter uma chance de os ver e absorver totalmente o que eles têm para oferecer.

Extraído de
Aikido Journal #114
Tradução: Umebala


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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