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ENTREVISTAS COM GRANDES MESTRES
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Entrevista
com Seiseki Abe
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por Stanley Pranin e Ikuko Kimura
Renomado Calígrafo e mestre de Aikidô relembra suas experiências
como estudante e professor de Morihei Ueshiba
Você é um conhecido mestre da Caligrafia.
Como começou o "Caminho da Escrita" ?
Eu era professor escolar, inicialmente na escola
primária, então numa escola de meninas e posteriormente
nos níveis júnior, secundário sênior e universitário. Naquele
tempo eu me perguntava freqüentemente: qual é a coisa mais
importante que se pode trans-mitir aos estudantes ? Uma
das respostas a que cheguei foi "aprecia-r, valorizar e
honrar nossos pais". Esta conclusão foi provavelmente influenciada,
em grande parte, pela tradição da cultura japonesa de levar
em consideração a família e os antepassados antes de pensar
em si mes-mo. No meu caso, meu pai esperava se tornar um
calígrafo, assim pensei no Caminho do Pincel como o melhor
modo de o honrar. Conseguir isto se tornou uma de minhas
metas de vida. Por coincidência, o nome de minha mãe é "Fude",
que também é a palavra japonesa para pincel! De qualquer
maneira, parecia ser parte de meu destino tornar-me um calígrafo.
Meu pai havia estudado Caligrafia com Ekido Teranishi, calígrafo
famoso de Osaka, e porisso o estilo de meu pai sofreu influência
do estilo de Teranishi, até se tornar ele mesmo bastante
hábil. Assim, eu era provavelmente a pessoa mais apropriada
para continuar como seu sucessor e foi isto que me levou
à Caligrafia
A Caligrafia tem sido uma tradição
em sua família ?
Assim tem sido. Desde sem-pre lembro-me de praticamente
todos os cômodos da casa enfeitados pelos trabalhos caligráficos
feitos pelas gerações anteriores.
Ouvi dizer que em certo ponto em sua
carreira de Calígrafo você se encontrou em um impasse -
um período de estagnação, se entendi - e então você descobriu
um grupo chamado "Misogikai", que o ajudou a superar a barreira.
O que poderia falar para nós?
O crescimento de uma pessoa como calígrafo passa
por várias fases: inicialmente você é ensinado sobre como
trabalhar a "forma" ou o "padrão" dos caracteres. Felizmente,
há tantos exemplos de belas formas - considerando desde
a Dinastia Han na China - que não há porque estagnar-se
quan-do se está explorando a forma. Onde comecei a ter dificuldades
foi em minha exploração da "linha" (embora esta palavra
possa ser um termo muito simplista para o que significa
na realidade), que é o que se trabalha após ter certo domínio
da forma. Além disso, trabalha-se com os conceitos de "densidade"
e "espessura", e estes ainda são simples de se entender;
mas mais além tem que se trabalhar com "profundidade" e
"superficialidade". Superficialidade é ainda simples de
se entender, mas o que eu estava tendo dificuldade era como
adicionar a profundidade às minhas pinceladas. Pro-fundidade
é a menos visível das qualidades, contudo é uma das qualidades
que dão vida a uma obra caligráfica, tanto que pode ser
considerado o coração e a alma da Caligrafia Japonesa. O
grau de densidade ou espessura é uma qualidade relativamente
visível, que determina se uma linha tem a energia ou vigor
pretendido pelo artista, mas qua-lidades como profundidade
(e tam-bém "altura"), invisíveis ao olhar, são muito esquivas
à visão. Neste ponto, meu crescimento como Calígrafo entrou
num impasse. Foi naquela época que pela primeira vez encontrei
o Misogi no Renseikai (Sociedade para Treinamento do Misogi),
de Kenzo Futaki. Kenzo era Doutor em Medicina e um estudante
no pré-guer-ra de Morihei Ueshiba, O Misogikai foi um grupo
que se dedicou a explorar e divulgar métodos que pretendiam
descortinar um tipo de força psicológica ou espiritual,
que estava além de mera força física - métodos que hoje
chamamos de Misogi (purificação) para expandir o ki. Pareceu-me
ser exatamente o que estava precisando. A data de inscrição
já havia passado, mas fizeram-me uma exceção e pude me unir
à primeira sessão, que foi administrada como um treino de
campo, consistindo em uma semana de seminários.
O Misogikai foi criação de Futaki
Sensei?
Sim, foi ele quem o fez crescer, embora os métodos
de treinamento tenham sido formulados Bonji Kawatsura [filósofo
que organizou e formulou as práticas Misogi Japonesas],
foram ensinados no Misogikai por um dos estudantes de Kawatsura
Sensei, Ken Tatsumi.
Quais eram estas práticas?
Há oito principais. De pé sob a água fria (mizu no
gyo) é um dos mais conhecidos. Os oito incluem norito no
sojo, mizu no gyo, furitama no gyo, ama no toribune no gyo,
chinkon no gyo, genshoku no gyo e bunkon toitsu no gyo.
Estas práticas são relacionadas à
religião Omoto?
O que Futaki Sensei e Kawatsura Sensei estava fazendo
não era baseado em religião, mas nas tradições e costumes
japoneses. Práticas de Misogi são formalizações dos vários
costumes comumente seguidos pelos japoneses em suas vidas
diárias desde os tempos antigos. Não são, em outras palavras,
derivadas do Budismo indiano ou Con-funcionismo chinês,
mas de práticas japonesas antigas que estão claramente documentadas
em trabalhos como o Kojiki (Re-gistros de Assuntos Antigos).
O trabalho de Kawatsura Sensei consistiu em despojar estas
formas de modo às tornar aces-síveis a qualquer pessoa que
as queira praticar.
Com seus livros, Kawatsura Sen-sei
é a maior autoridade sobre o Misogi?
Entre os melhores escritos provavelmente está sua
obra em dez volumes: "Bonji Kawatsura: Collected Works".
Embora escrito no estilo chinês formal (Kambum) ainda é
provavelmente o mais acessível trabalho sobre Misogi para
pessoas leigas. O tratamento do assunto dá aos leitores
uma excelente visão geral de Kawatsura Sensei, embora sendo
ele um filósofo e especialista em religião, a discussão
às vezes torna-se bastante sofisticada e difícil de seguir
em certos trechos. Por outro lado, Futaki Sensei era um
médico formado pela Medicina moderna, assim é o de compreensão
mais acessível. Era também um especialista no Kojiki; no
Misogikai apresentou suas interpretações do Kojiki e dos
norito como sendo compostas por frases formalizadas ou preces,
formuladas no idioma clássico, endereçadas às deidades presentes
nos rituais Shinto.
Estas interpretações eram parte do programa do seminário
?
De fato, eram o foco principal do seminário. Entre
sessões de treinamento em água fria nós escutávamos Futaki
Sensei dissertando suas interpretações do Kojiki e norito.
Os treinamentos em água fria duravam de trinta minutos a
uma hora, quatro vezes por dia (uma vez pela manhã, duas
vezes pela tarde. e uma vez pela noi-te). Futaki Sen-sei
tam-bém era defensor entusiás-tico da alimen-tação à base
de arroz integral. Reduzir o consumo de comida é um dos
aspectos mais difíceis da prática do misogi, mas considerado
de suma importância, baseado na idéia que alimentando-se
com uma quantidade normal, sua mente passa a ter somente
pensamentos normais. O arroz integral é bom para isto porque
é um dos melhores alimentos que você pode fornecer ao seu
corpo. Pelo fato de não ser refinado, é o mais próximo do
arroz vivo - brotaria se você o plantasse, por exemplo -
assim comer pouco disto é o suficiente. Então temos inicialmente
a redução do consumo de comida, auxiliada pelo arroz integral;
daí parte-se para o treinamento na água fria. A água fria
vertendo de cima naturalmente resfria seu corpo, o que conduz
então à prática de furitama e, depois, chinkon kishin. Ao
cumprir-se estas práticas, sente-se um grau de esclarecimento
e um estado de engrandecimento e aprofundamento espiritual
que é inexprimível em palavras, um estado de mente e corpo
no qual nós sabemos o que é verdadeiramente viver e estar
vivo.
A prática do Misogi permitiu-lhe superar a paralisação completa
você enfrentou em sua Caligrafia?
Mudou a atitude e o modo de pensar sobre minha caligrafia.
Isto foi na mesma época em que que Futaki Sensei recomendou
minha iniciação ao Aikidô. Ele me demonstrou um arremesso
e fiquei extremamente impressionado. Ele disse: "Nossa nação
é o lar de um budo maravilhoso como este, e eu recomendo
veementemente que você o leve a cabo se você tiver uma chance.
Vocês, jovens deste dias, parecem ter perdido o rumo e penso
que isto lhes faria muito bem". Sua técnica era tão impressionante
que eu tinha certeza de que o Aikidô estaria em meu futuro,
embora não soubesse como ou quando eu acharia um mestre.
Com a guerra se tornando mais intensa, Morihei Sensei raramente
ensinou para o público em geral e dedicou a maior parte
de seu tempo ensinando em lugares como Toyama Gakko e Nakano
Gakko, instituições militares especiais em Tóquio onde ele
ensinava.
Seu estudo de misogi Kojiki o preparou naturalmente para
levá-lo ao Aikidô. Como conheceu Ueshiba Sen-sei ?
Bansen Tanaka [1912-1988] abriu um dojo de Aikidô
em Osaka em 1952. No dia seguinte à abertura aconteceu de
eu estar passando e notei o nome "Tsunemori Ueshiba" na
placa da porta. Tanaka e eu nos conhecíamos, embora não
soubesse que ele havia feito Aikidô. Vi que ele estava em
casa, assim entrei e disse: "No-tei o nome na placa. Ueshiba
Sensei está realmente aqui ?". Respondeu que realmente era
ele e que o Dojo havia sido aberto poucos dias antes. O
próprio Ueshiba Sensei apareceu depois de pouco tempo e
assim foi a primeira vez que o vi. Quando me apresentei
como um estudante de Futaki Sensei ele tomou um interesse
imediato por mim e me disse que entrasse. Então começou
a falar sobre várias coisas difíceis - conceitos muito sofisticados
que têm a ver com chinkon kishin e assim por diante. Falou
por um bom tempo e, quando ele tinha finalmente terminado,
disse: "Isso é tudo por hoje. Venha amanhã novamente!".
E você se tornou seu aluno naquele
dia ?
Sim, e me considero muito afortunado, pois naquele tempo
era muito raro ele assumir alunos novos. Na ocasião ele
geralmente não ensinava ninguém que não viesse com pelo
menos duas indicações formais.
Qual a influência que a prática do
misogi e de Aikidô tiveram sobre sua Caligrafia?
Para mim, os três convergiram. Aikidô, por exemplo,
não é no final das con-tas simplesmente torcer pulsos, causando
dor, ou arremessar pessoas; é sobre o cultivo do ki, o que
é algo completamente diferente daquilo. O mesmo é verdadeiro
sobre a Caligrafia: há cinco ou dez mil caracteres que nós
podemos pintar, aprendendo sobre a forma e a linha, mas
ao final nós somos atraídos por algo que está além daquilo,
e este algo nada mais é que o ki. Assim Caligrafia e Aikidô
tornaram-se uma só coisa em minha mente e eu comecei a praticar
ambos com o mesmo entusiasmo.
Você certa vez observou que "a essência
da Caligrafia reside no kokyu [lit. respiração]". É este
o mesmo tipo de kokyu que nós nos referimos em Aikidô?
É o mesmo. Isto traz a seguinte questão: "o que exatamente
estamos ensinando quando ministramos Caligrafia?" Nós ensinamos
a forma e como desenhar os caracteres, mas penso que se
não formos capazes de ensinar um certo algo a mais, então
a Caligrafia perderá a vida e não interessará as pessoas.
Este "algo mais" é mesmo importante,
não ?
Realmente é. Infelizmente, embora atualmente a Caligrafia
tenha se tornado popular, tenho sentido que à maioria não
se oferece o potencial para descobrir o "algo a mais".
Você considera que se deve desenvolver
por conta própria, através da prática sincera e pelo trabalho
concomitante ao próprio processo de aprendizado?
Sim, e uma vez que se tenha conseguido, você pode
começar exteriorizar seus sentimentos para além de suas
próprias habilidades, executando peças fisicamente grandes
ou grandes quantidades de peças, e você pode passar tudo
o que você aprendeu - o que você vislumbrou - para a próxima
geração. Em outras palavras, neste ponto suas atividades
ficam focadas ou na sua própria transformação, repassada
em seus trabalhos, ou colocando-se em uma posição intermediária,
na qual se dá aos outros o que você tem, ou então ambos.
Como Morihei Sensei foi levado à Caligrafia ?
Parece-me que na verdade ele teve alguma prática
antes de nos conhecermos, embora duvide que algum destes
trabalhos tenha permanecido. Em 1954 acompanhei Morihei
Sensei a Shingu para a abertura do Dojo de Michio Hikitsuchi.
Nós permanecemos lá por volta de um mês, e visto que Morihei
Sensei odiava ver as pessoas ociosas, ele me pediu que ensinasse
Caligrafia entre as aulas de Aikidô. Um fotógrafo de nome
Kuba formou um grupo de estudantes e subitamente me achei
com um trabalho de meio período! Morihei Sensei observava-me
enquanto eu lecionava e gradualmente acabou por se interessar.
Antes que me desse conta, ele estava dizendo: "Bem, talvez
eu mesmo pudesse fazer algo...". A primeira peça que pintou
foi a palavra "aiki", embora eu não esteja seguro sobre
onde esteja esta peça hoje. Depois que retornamos de Shingu,
ele começou a visitar minha casa para passar dias inteiros
praticando Caligrafia. Ele parecia divertir-se muito com
isto.
Como é "ensinar" seu próprio professor?
Ele era meu mestre de Aikidô, assim era impensável
"ensinar" no sentido usual da palavra. Em lugar do método
usual de lhe dar uma amostra de meu trabalho para ele praticar
copiando, eu simplesmente solicitei polidamente para que
me observasse pintando os traços. Assistindo-me ele sempre
diria coisas como "Ah, sim, agora vejo como você escreveu
aquilo!". Um das coisas mais difíceis era que ele escrevia
tão rápido que eu tinha de dificuldade em clarificar-lhe
o espaço para a assinatura. Só há um lugar satisfatório
para a assinatura, assim eu tento escolher o instante exato
de o fazer - usando uma forma de aiki - apontando um lugar
de tal maneira que efetua-se a pincelada perfeitamente e
sem interromper o fluxo. Há uma peça caligráfica incomum
que Morihei Sensei fez usan-do seu dedo no lugar do pincel.
Exemplos de peças caligráficas feitas com dedos exis-tem,
assim imagino que ele deve ter ouvido falar sobre isto e
decidiu-se a tentar o mesmo em sua caligrafia. A maioria
das pessoas não teria pensado em fazer uma coisa dessas.
Morihei Sensei tinha uma certa tensão interna sempre que
usava o pincel. Imagino ser porque ele pretendia expressar-se
por inteiro na peça. Usando a tinta como um instrumento,
ele transferia seu ki para dentro dos caracteres quando
os pintava. Olhe para os seus trabalhos e você imediatamente
pode senti-los imbuídos de um ki incrivelmente forte. Curiosamente,
os estrangeiros que não conhecem japonês às vezes são os
mais sensíveis a isto. O espírito da Caligrafia de Ueshiba
Sensei reside não nas formas dos caracteres, mas em sua
ressonância e iluminação. Similarmente, este espírito não
reside em Aikidô nas técnicas que se pode ver com seus olho-s,
mas justamente no que não se pode ver. Morihei Sensei sempre
executou seus trabalhos caligráficos de uma só penada, mas
tam-bém sem pensar demasiadamente em sua respiração (kokyu).
A mesma coisa quando executava exer-cícios como furitama
e otakebi [no Shin-toísmo, grito vigoroso com o propósito
de atrair deidades]. Ele sempre nos disse para respirar
três vezes antes de iniciar o furitama, sendo o principal
ponto agir sem consciência, em primeiro lugar estabilizando
a respiração em seu centro e usan-do aquela estabilidade
como um ponto de partida para respirar naturalmente. Esta
ênfase na respiração naturalmente é uma conexão adicional
entre Aikidô e Caligrafia.
Você começou sua carreira no Aikidô
como um uchideshi?
De acerto modo, sim, mas na época era Morihei Sensei
quem ia à minha casa para praticar Caligrafia. Isto me pôs
na posição bastante incomum de ser um uchideshi em minha
própria casa! Nós providenciamos um cômodo à parte especialmente
para ele, e desta maneira nós desenvolvemos nossas relações
como estudante e professor. No entanto, era uma relação
de aluno-mestre ao velho estilo, baseadas nas rígidas atitudes
do bushido. A disciplina não foi imposta externamente, pelo
contrário, eram as atitudes e comportamentos que qualquer
uchideshi naturalmente se sujeita quando no desejo de servir
seu professor. Este realmente é o único modo de verdadeiramente
compreender e absorver o kokyu de seu professor. Viver sob
o mesmo teto vinte e quatro horas por dia não só lhe dá
acesso às habilidades técnicas de seu mestre mas também
uma com-preensão do modo como ele vive e respira, seu tipo
de vida e seus ritmos. É uma oportunidade para treinar e
disciplinar o ki e no processo conhecer todos os lados de
seu mestre. Mo-rihei Sensei tinha por hábito efetuar visitas
de uma semana a dez dias de cada vez, e ter tal contato
com sua vida e por tão extensos períodos foi uma experiência
verdadeiramente surpreendente e preciosa.
Por exemplo, ao preparar chá, eu tinha que sentir ou julgar
a sua sede e ajustar a temperatura adequadamente. Ou preparando
seu banho, tinha de ter o mesmo cuidado para deixar a água
na temperatura certa - e não simplesmente esticar minha
mão para testar diretamente mas, ao levar os baldes de água
quente, julgar a partir disto. Se punha minha mão diretamente
na água, um mínimo de óleo de minha pele penetraria na água
e ele perceberia. Em outras palavras, servir seu próprio
mestre é ser sensível e conscienci-oso e fazer as coisas
correta e adequadamente, sem usar truques ou atalhos. Até
mesmo ao dormir em um quarto adjacente, meu kokyu teve de
ser emparelhados com o dele o tempo todo. Tais experiências
são a parte maravilhosa de ser um uchideshi.
A dieta de Morihei Sensei era influenciada
pela recomendação de Futaki Sensei para se alimentar de
arroz integral ?
Ele sempre comia arroz integral quando ficava em
casa. Certa vez, Futaki Sensei disse-me que se eu tivesse
oportunidade, eu deveria fazer Morihei Sensei experimentar
arroz integral. Quando eu mencionei isto para Morihei Sensei
ele apenas disse: " Eu percebi... " e dali em diante sempre
comeu arroz integral toda vez que ficava conosco.
Como você interpreta o Aikidô a partir
de seus estudos do Kojiki?
Pessoalmente não tenho nenhuma interpretação própria do
Kojiki. Há muitas pessoas que vieram aprender comigo, mas
eu quase nunca falo sobre o Kojiki quando lhes ensino Aikidô.
Con-sidere a idéia de Ama no Minakanushi. Considerando-se
de uma perspectiva religiosa, provavelmente tem-se uma visão
de Ama no Minakanushi como uma deidade específica a ser
reverenciada. Mas como um moderno Doutor em Medicina, Futaki
Sensei evitou este tipo de idolatria. Apesar de conversar
sobre coisas como kotodama, ele interpretou-os numa linguagem
moderna. Sua interpretação para Ama no Minakanushi, por
exemplo, é a seguinte: Ama, literalmente, significa "celestial"
ou "divino"; é simplesmente um termo respeitoso. No é um
simples conector gramatical; Mi é o prefixo respectivo.
Isso deixa naka (centro, meio) e nushi (lorde, o senhor,
o proprietário de). Ele sentia, então, que Ama no Minakanushi
não representava nenhuma deidade observan-do-nos de uma
perspectiva divina no cosmos, mas referia-se, ao invés disto,
ao primeiro ancestral de nossa nação que, de acordo com
Futaki Sensei, ensina a idéia da "importância do centro"
(o centro sendo algo que todo ser humano possui). "Enten-da
este centro e acalente-o" era sua interpretação. Ele falou
de Aikidô como sendo um movimento circular, dizendo que
deve-se achar o centro e conduzir tudo o mais nos círculos
que nos cercam. O Aikidô moderno que atualmente praticamos
não é diferente disto, no sentido que nós ensinamos as pessoas
a ter seu próprio centro, a trabalhar com as forças centrífugas
e centrípetas para atrair o parceiro ou fazê-lo girar em
torno daquele centro, persuadindo e colocando o atacante
em uma posição que nos permita controlá-lo. Estes círculos
podem também ser transpostos para a forma tridimensional,
quan-do se tornam espirais. Em todo caso, Ama no Minakanushi
é o indivíduo que ensinou que "o centro das coisas são importantes
". Esta idéia seguramente é verdadeira em muitos dos aspectos
da vida diária. Pense sobre quem está ao centro de uma típica
[tradicional] casa japonesa, por exemplo. Pela manhã a esposa
é o centro, por aparecer primeiro e começar a preparar o
café da manhã. Então o marido vai à mesa e ele se torna
o centro quando come e se prepara para ir ao trabalho. O
centro então passam a ser as crianças quando estão prontas
para ir à escola. Uma vez que todos saíram da casa, a esposa
sozinha passa a se tornar novamente o centro quando ela
passa a se ocupar dos cuidados domésticos. Outro exemplo
seriam nós três participando desta entrevista. Desde que
sou eu quem está falando no momento, eu sou Minakanushi.
Quan-do você responde ou faz outra pergunta, então você
se torna aquele centro. Em outras palavras, o centro é algo
que muda. Assim Ama no Minakanushi representa não uma deidade
específica ou ídolo, mas o conceito da importância do centro.
Este é um exemplo da interpretação de Futaki Sensei sobre
o Kojiki.
Estaria correto dizer que o Kojiki
estava no centro do pen-samento de 0-Sensei?
Sim, pelo menos em termos de explicação de técnicas.
Além disso, o Kojiki é uma das poucas coisas no Japão que
é quase absoluto e imutável, contendo em si as tradições
e herança xintoístas do povo japonês como nação. A essência
ou caminho do Japão é representado no Kojiki, particularmente
nos contos até Izanagi no Mikoto e Ama Terasu no O-Mikami.
Aquilo no qual nós podemos acreditar fortemente está contido
nas lendas que descrevem Ama no Minakanushi pelas primeiras
sete gerações divinas da idade dos deuses. Uma leitura detalhada
mostra que as interpretações de Onisaburo Deguchi Seishi
[1871-1948, co-fundador da religião Omoto] eram bastante
apropriadas, pelo menos em termos de kotodama.
Teria sido bastante interessante ouvir
uma discussão do Kojiki entre Futaki Sensei e Ueshiba Sensei,
não acha ?
Teria sido certamente. Imagino que seria simples
para alguém com uma bagagem nas interpretações Omoto do
Kojiki entender as interpretações de Futaki Sensei e vice-versa.
Alguém com uma com-preensão da interpretação de Futaki Sensei
de Minakanushi como "centro" não teriam nenhuma dificuldade
de compreensão do tipo de "centro" de que Onisaburo Deguchi
falou. A única diferença essencial é as interpretações de
Futaki Sensei partem de uma perspectiva científica em vez
de religiosa. 0-Sensei e Futaki Sensei diferiram deste modo
dentro nas suas interpretações do Kojiki, entretanto não
penso que eles tenham alguma vez discutido estas diferenças.
Ueshiba Sensei alguma vez falou sobre
suas experiências em Hokkaido?
Ele falava freqüentemente sobre os misogi feitos
em Hokkaido. Ele mencionou as abluções feitas em águas geladas
em temperaturas abaixo de zero, dizendo que enquanto ele
trabalhava duro para cortar um buraco no gelo grosso no
primeiro dia, o gelo naquela mesma área estava mais fino
no dia seguinte, e assim não era tão difícil.
Você fez um estudo extenso dos doka
(lit: " Canções do Caminho") de Ueshiba Sensei. Poderia
nos dar sua avaliação para entendermos melhor Ues-hiba Sensei
levando em conta estes versos?
Uma coisa que notei é que há uma certa consistência
no foco que transpassa os doka de Ueshiba Sensei, uma consistência
que sugere que seria melhor evitar dividir - como foi feito
anteriormente - em doka pré e pós-guerra. Os doka são focados
não tanto nas pessoas ou coisas na esfera humana, mas em
como elas são o universo em si, e em oferecer pistas sobre
como estar em harmonia com este universo. Isto é certamente
verdade nos doka pós-guerra. mas os doka pré-guerra também
são caracterizados por este foco. Os doka de ambos os períodos
expressam a idéia de que "bu" (o marcial) é amor ("bu wa
ai nari") e interpreta a espada como "a espada gerando a
vida" (katsujinken). Esta idéia de bu como uma manifestação
das qualidades do amor e harmonia é consistente ao longo
dos doka de 0-Sens-ei.
0-Sensei compunha seus doka como trabalhos
de Caligrafia ?
Não, freqüentemente escrevia à caneta em algum de
seus pequenos cadernos que ele levava em sua bolsa. Um deles
permanece em minha casa até hoje e eu o considero um grande
tesouro. Ele tinha uma grafia muito bonita. 0-Sensei começou
a man-ter um diário na época de sua experiência de iluminação,
por volta do fim da era Taisho [1912-25], e ele continuou
por muitos anos. Sendo profundamente instruído, usou um
estilo manuscrito japonês de caligrafia conhecido como "hentai
kana", um estilo cursivo silábico bastante incomum. Os doka
de Morihei Sensei são recheadas de referências à teologia
Omoto, mas a essência de seu espírito vai além do Omoto
para abarcar o "espírito de harmonia" japonês e também o
kotodama wa [palavra para harmonia]. Por conseguinte, considero
que é melhor ver e entender os doka dentro de um contexto
histórico em lugar de um contexto religioso. A iluminação
que Morihei Sensei alcançou pelo seu treinamento o engrandeceu
enor-memente como ser humano e artista marcial, e este crescimento
é claramente visível nos sete ou oito temas diferentes aos
quais ele se referiu nos doka, um dos quais, por exemplo,
faz referencia às "técnicas divinas de Odo". O estudo de
Morihei Sensei de Daito-ryu e o seu envolvimento na religião
Omoto obviamente o influenciaram grandemente, mas suspeito
que a firmeza de seu treino de misogi, que praticou desde
muito cedo, foi também de suprema importância para que se
tornasse quem se tornou. Ele mesmo sugeriu isto em declarações
como "Ai-kidô é misogi". Ponha isto de uma maneira ligeiramente
diferentemente: "Aikidô são as divinas técnicas de Odo"
[de acordo com o Kojiki, Izanagi no Mikoto, ao escapar do
mundo da morte, fez uma purificação ritual em Awa-kihara
pelo Odo (lit: "boca estreira do rio") Quando que ele se
livrou das impurezas, os kami ou "deidades" nasceram. Então
quando ele entrou na água e se purificou, mais kami nasceram.
0-Sens-ei disse que o Aikidô nasceu como resultado das impurezas
sobre Izanagi no Mikoto durante sua purificação misogi].
No meu ponto de vista, o propósito vital de Morihei era
essencialmente a propósito das técnicas divinas de Odo.
Você tem algum plano específico para ajudar manter o espírito
de 0-Sens-ei vivo de forma que outros possam continuar conhecendo
e experimentando ?
Eu me sinto muito endividado com 0-Sensei e também
estou de posse de muitos dos seus trabalhos caligráficos,
assim considerei publicá-los em algum tipo de coleção póstuma.
Eu já esbocei um texto sob a supervisão de Kisshomaru Sensei,
mas restam alguns artigos que ainda gostaria de acrescentar.
Desafortunadamente, não tenho podido continuar nem fazer
algum progresso, mas futuramente espero publicar os trabalhos
de Morihei Sensei de forma que os praticantes de Aikidô
de todo o mundo possam obter inspiração através deles e
também adquirir o sentimento de quem foi Morihei Ueshiba.
Depois disso que espero alojar estes trabalhos em algum
tipo de tipo museu memorial de forma que os praticantes
de Aikidô de todo o mundo tenham uma oportunidade de conhecê-los
em primeiro mão. Eles simplesmente são por demais preciosos
para ficarem isolados longe da vista de todos. Gostaria
de os tornar acessíveis de forma que todo o mundo possa
ter uma chance de os ver e absorver totalmente o que eles
têm para oferecer.
Extraído de
Aikido Journal #114
Tradução: Umebala
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